A Nomad, fintech conhecida por sua conta global para brasileiros, está fazendo uma aposta de mais de R$ 100 milhões para trazer a primeira unidade do Time Out Market à América Latina. O complexo gastronômico e cultural ocupará um espaço de 3.250 m² no icônico Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, com inauguração prevista para o primeiro trimestre de 2027. O acordo, firmado por um prazo de 10 anos, vai muito além de um patrocínio tradicional.
A leitura aqui é estratégica: para uma empresa que nasceu digital e focada no nicho de viagens, o investimento massivo em um espaço físico de alta circulação representa um movimento calculado para se desvencilhar do rótulo de “banco de viagem”. A Nomad quer se inserir no dia a dia do consumidor brasileiro, e a aposta é que o caminho para se tornar o banco principal passa por experiências memoráveis — neste caso, começando pela gastronomia.
“Experience rights” em vez de naming rights
O ponto central do acordo, segundo Thais Souza Nicolau, diretora de marketing da Nomad, é o modelo de “experience rights”. A executiva diferencia a iniciativa dos contratos de naming rights, que se tornaram comuns em arenas e espaços culturais. Para a fintech, estampar o logo em uma fachada seria uma abordagem “fria” e limitada. A proposta aqui é de uma colaboração profunda, que envolve desde a curadoria de um restaurante operado pela própria Nomad até a criação de conteúdo e ativações conjuntas.
Essa estratégia de materializar a marca não é nova para a empresa, que já opera o Nomad Lounge no Aeroporto de Guarulhos e o Nomad Coffee em São Paulo. O que muda agora é a escala e a ambição. Ao investir em um projeto de grande porte e longa duração, a Nomad busca construir um ativo de marca que gere uma conexão mais duradoura e “palpável”. É uma aposta de alto custo em um mercado de fintechs frequentemente obcecado com a otimização de custos de aquisição digital. A Nomad parece jogar um jogo diferente, focado em brand equity e valor percebido.
Da conta de viagem ao banco do futuro
O movimento sinaliza a ambição maior da companhia: evoluir de uma solução financeira para um ecossistema de lifestyle. Conforme declarado pela própria empresa, o objetivo final é se tornar “o banco principal dos brasileiros no futuro”. Para isso, é preciso criar pontos de contato recorrentes com o cliente que não dependam de uma viagem internacional. O Time Out Market, com sua previsão de alta visitação diária, serve como uma plataforma para essa recorrência, associando a marca a momentos de lazer e cultura na maior cidade do país.
A parceria também tem um componente global. O contrato prevê ativações em outras unidades do Time Out Market, como Lisboa e Nova York, e garante à Nomad direito de preferência em futuras expansões na América Latina. A estratégia é dupla: não apenas levar o brasileiro para o mundo, mas também “trazer um pedacinho do mundo para os brasileiros”, como afirmou Nicolau. Um dos restaurantes do espaço, por exemplo, terá curadoria da Nomad para trazer chefs e marcas internacionais, reforçando a proposta de valor de uma vida global.
Em um cenário onde a competição entre bancos digitais se acirra em taxas e funcionalidades, a Nomad aposta que a diferenciação virá de um lugar inesperado: a experiência física. O investimento de nove dígitos em um mercado gastronômico é um teste em escala real para saber se o caminho para a fidelidade financeira do cliente pode, de fato, ser pavimentado com alta gastronomia, cultura e uma marca que se faz presente muito além do aplicativo no celular.
Com reportagem de Brazil Valley
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