Em Salzkammergut, região dos Alpes austríacos, um novo anexo de madeira carbonizada se destaca na paisagem. Batizado de “Quiet Retreat” (Refúgio Silencioso), o projeto do estúdio Lechner & Lechner Architects é um espaço autônomo e multifuncional, concebido como um lugar para “se retirar e pensar”, segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen.

A construção forma um conjunto em formato de U com a casa existente e uma formação rochosa, criando um pátio central. A escolha estética e funcional aponta para um diálogo entre a tradição construtiva local e uma abordagem minimalista contemporânea, resultando em uma arquitetura que busca ser, ao mesmo tempo, aberta à natureza e profundamente introspectiva.

Contraste como princípio

A identidade visual do projeto é definida pelo forte contraste entre o exterior e o interior. Do lado de fora, a fachada é revestida de madeira carbonizada pela técnica japonesa Shou Sugi Ban. A escolha, segundo o arquiteto Paul Lechner, é uma referência aos celeiros alpinos tradicionais, que escurecem naturalmente com o tempo. Ao carbonizar a madeira, o edifício adquire uma aparência mais assentada na paisagem desde o primeiro dia, evitando o aspecto de “construção nova”.

Internamente, a estratégia é oposta. As paredes e o teto de duas águas são inteiramente revestidos com painéis claros de OSB (oriented strand board), um aglomerado de madeira. “O contraste entre o exterior escuro e o interior mais claro tornou-se uma parte importante do caráter da casa”, afirmou Lechner à Dezeen. Essa dualidade cria uma atmosfera de abrigo e concentração, com o interior luminoso funcionando como uma tela em branco para as atividades ali propostas.

Aberto, mas não exposto

O ponto de partida para o design foi a própria paisagem, e o maior desafio foi encontrar o equilíbrio entre abertura e privacidade. O objetivo, segundo os arquitetos, era criar uma sensação de estar “aberto, mas nunca exposto”. Para isso, uma das paredes longas é composta por portas de vidro dobráveis, que integram completamente o interior ao pátio de cascalho e às vistas das montanhas e prados ao redor.

Do outro lado, uma única janela funciona como uma moldura para a floresta adjacente, um enquadramento preciso da natureza. O espaço foi deixado propositalmente livre de elementos fixos que definam um uso específico. Com exceção de algumas agarras de escalada em uma parede e um sino alpino tradicional pendurado no teto, o anexo é um convite à apropriação livre, seja para trabalho criativo, lazer ou contemplação.

O resultado é um espaço que honra sua função de refúgio. A arquitetura não impõe um uso, mas oferece um palco minimalista e bem calibrado para a pausa e a reflexão, emoldurado pela imensidão dos Alpes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen