Alyce Mahon, em sua nova obra "Dorothea Tanning: A Surrealist World", propõe uma visão panorâmica e meticulosamente pesquisada da vida e do trabalho da artista surrealista Dorothea Tanning. O livro se esforça para ancorar a biografia de Tanning em sua experiência como mulher, destacando as pressões que enfrentou e como ela conseguiu emergir como uma artista proeminente por mérito próprio, mesmo diante da constante associação com seu marido, Max Ernst. No entanto, a obra demonstra uma ambição excessiva e um tom por vezes demasiadamente acadêmico, o que acaba por fragmentar sua estrutura e diluir seu impacto.
Embora "A Surrealist World" apresente momentos de perspicácia e novas compreensões sobre a trajetória de Tanning, o livro é frequentemente alquebrado pela compilação tediosa de resenhas e críticas sobre sua obra, além de uma tentativa forçada de dissociá-la da figura de Ernst. O resultado é uma análise que se mostra, simultaneamente, morna e excessivamente defensiva em relação à sua protagonista. É importante notar que "A Surrealist World" é, inegavelmente, um projeto acadêmico, concebido por uma professora de história da arte. A linguagem é intelectualizada, visando claramente outros acadêmicos, e o livro oferece um panorama abrangente e bem documentado da vida de Tanning.
Mahon inicia a narrativa com a infância de Tanning em Galesburg, Illinois, filha de imigrantes suecos, em uma cidade descrita como “pequena e adormecida”, onde “nada acontece além do papel de parede”. Contudo, desde cedo, Tanning almejava grandes feitos. Sua jornada a levou a Chicago e, posteriormente, a Nova York em 1935. Na metrópole, Tanning trabalhou como artista comercial, criando anúncios para a Macy's e outros clientes corporativos. Sua fascinação pelo Surrealismo floresceu após visitar a exposição "Fantastic Art, Dada, Surrealism" no Museum of Modern Art em 1936. A partir daí, sua vida seguiu uma trajetória peculiarmente surreal: em 1939, visitou Paris com uma lista de artistas que desejava conhecer. Ainda uma novata, Tanning encontrou uma Paris sombria, com a guerra iminente no horizonte. Max Ernst, um dos artistas que ela esperava encontrar, seria conhecido em Nova York em 1942 e casado em 1946.
A biografia de Mahon, apesar de seu rigor acadêmico e pesquisa aprofundada, parece lutar para equilibrar a afirmação da independência de Tanning com a inescapável influência de Ernst em sua vida e obra. A análise, por vezes, se perde em detalhes contextuais que, embora relevantes para a academia, podem afastar o leitor menos especializado. A tentativa de construir Tanning como uma figura isolada e autossuficiente, embora louvável, pode soar artificial diante da complexidade de suas relações e do contexto artístico da época.
O livro de Mahon oferece um ponto de partida valioso para a compreensão de Dorothea Tanning, mas a própria estrutura acadêmica e a abordagem defensiva acabam por limitar o alcance da obra. A autora se propõe a resgatar Tanning das sombras de Ernst, mas a análise poderia ter se beneficiado de uma abordagem menos focada em provar um ponto e mais aberta a explorar as nuances e interdependências que moldaram a artista. A questão central que permanece é se a obra de Tanning pode, de fato, ser plenamente compreendida sem considerar a profunda e complexa relação com Ernst.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





