O impacto de medicamentos como Ozempic e Wegovy na gestão da obesidade já é notório, transformando diretrizes clínicas e o cotidiano de milhões. Contudo, a indústria farmacêutica não para de inovar. Um número especial da revista Science, compilado pela Xataka, revela que a próxima geração de fármacos para emagrecimento já está em desenvolvimento, com o objetivo de superar as limitações atuais e oferecer resultados ainda mais expressivos.

As terapias atuais, embora eficazes, apresentam desafios. A necessidade de injeções semanais é um deles, mas já há avanços em tratamentos orais. Mais significativamente, efeitos colaterais gastrointestinais, a variabilidade na resposta entre pacientes, a perda de massa muscular e a rápida recuperação de peso ao interromper o uso são pontos críticos. A nova onda de pesquisas busca endereçar diretamente essas questões, prometendo não apenas maior perda de peso, mas também maior sustentabilidade desses resultados.

A corrida por moléculas mais potentes

Os primeiros ensaios de novas moléculas apontam para perdas de peso que rivalizam com os resultados da cirurgia bariátrica, algo antes inimaginável com medicamentos. A retatrutida, desenvolvida pela Lilly, tem demonstrado resultados surpreendentes em testes com humanos. Pacientes sem diabetes tipo 2 tratados com uma dose de 12 mg atingiram uma média de 28,3% de perda de peso corporal em 80 semanas, com quase metade dos participantes alcançando ou superando 30% de perda. Esse avanço sugere um novo patamar na eficácia terapêutica para a obesidade.

Paralelamente, a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, explora a combinação CagriSema. Em testes, essa terapia resultou em uma perda de peso média de 20,4% após 68 semanas, contrastando com o modesto 3% observado no grupo placebo. Esses números indicam que a combinação de diferentes mecanismos de ação pode ser a chave para otimizar a perda de peso e, potencialmente, mitigar alguns dos efeitos indesejados.

Preservando a massa muscular e combatendo o efeito rebote

Um dos desafios mais significativos na perda de peso acelerada é a consequente perda de massa muscular, que compromete a saúde metabólica a longo prazo. O fármaco MariTide, por exemplo, demonstrou em fase 2 que, apesar de promover uma perda de peso de até 16%, também resultou na queda de 11,6% na massa muscular dos pacientes. Para combater esse efeito, a indústria está ensaiando terapias combinadas que atuam como um "escudo muscular".

Um exemplo é a combinação de semaglutida (princípio ativo do Ozempic) com bimagrumab, avaliada no ensaio BELIEVE da fase 2 pela Lilly. Essa terapia combinada resultou em uma perda de peso média de 22,1%, sendo que 92,8% dessa perda foi de gordura, preservando a massa muscular. Enquanto a semaglutida isoladamente reduziu a massa muscular em 7,4%, a terapia combinada, em doses altas, limitou essa perda a apenas 2,9%. Essa abordagem dual é crucial para uma perda de peso saudável e sustentável.

A busca por tratamentos crônicos e seguros

O "efeito rebote", a recuperação de peso após a interrupção da medicação, é um obstáculo considerável para tratamentos baseados no aumento de hormônios como GLP-1. Um metaanálise da Universidade de Oxford estima que cerca de 0,4 kg por mês sejam recuperados após o fim do tratamento, o que pode levar à reversão completa dos ganhos em menos de dois anos. Diante disso, a indústria propõe um modelo de tratamento crônico, contínuo ao longo da vida.

Nesse cenário, o orforglipron surge como uma opção promissora para manutenção do peso, evitando a rápida recuperação. No entanto, a jornada para a aprovação e disponibilidade desses novos tratamentos é longa e exige pesquisa extensiva para garantir a máxima segurança. A ciência avança rapidamente, mas a consolidação desses avanços em terapias acessíveis e seguras ainda demandará tempo e rigor científico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka