A governadora de Nova York, Kathy Hochul, está traçando uma linha dura contra a indústria de tecnologia. Em uma longa entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, Hochul defendeu uma série de intervenções estatais que vão desde a saúde mental de adolescentes em redes sociais até a proibição de armas impressas em 3D e a vigilância por câmeras inteligentes. A mensagem é clara: onde as empresas de tecnologia falham em se autorregular, o governo intervirá.

A agenda de Hochul, que se descreve como a “primeira mãe governadora” do estado, cristaliza um debate cada vez mais central na política global. Sua justificativa é a proteção dos vulneráveis, especialmente os jovens, cujas “saúdes mentais estão sendo monetizadas” por algoritmos viciantes. A questão que emerge, no entanto, é o custo dessa proteção para a liberdade digital, o anonimato e a inovação. Nova York se torna, assim, um laboratório crucial para o futuro da regulação tecnológica, com lições que ecoam para mercados como o brasileiro.

O Estado como Babá Digital

O principal campo de batalha de Hochul é o impacto das redes sociais nos jovens. Apoiando um acordo recente entre dezenas de estados e a Meta, ela defende medidas que seriam impensáveis há alguns anos. Entre elas, a proibição de notificações para menores de 18 anos entre meia-noite e seis da manhã e a ativação de controles de privacidade por padrão. A governadora também foi a força por trás da proibição de celulares em escolas no estado, uma medida drástica que, segundo ela, foi pedida pelos próprios estudantes. “Você precisa nos salvar de nós mesmos”, teria dito um aluno, em uma frase que se tornou um mantra para a governadora.

A base de sua argumentação é que a indústria, em sua busca por lucro, criou um problema de saúde pública comparável ao tabagismo. “É quase como fumar cigarros. Quanto mais cedo você os fisga, mais tempo você os mantém viciados”, afirmou na entrevista. Para Hochul, uma advogada de formação, essas medidas não ferem a Primeira Emenda da constituição americana, que protege a liberdade de expressão. A leitura é que não se trata de limitar o que os jovens podem dizer, mas de protegê-los de práticas comerciais predatórias. A crítica, no entanto, aponta para o efeito colateral mais amplo: a verificação de idade em larga escala, que pode efetivamente acabar com o anonimato online para todos os usuários, não apenas para os adolescentes.

Do Código à Bala

A intervenção não se limita ao software. Hochul também lidera uma frente contra as chamadas “ghost guns”, armas de fogo sem número de série que podem ser fabricadas em casa com impressoras 3D. A lei de Nova York que proíbe a prática já enfrenta uma corrida armamentista tecnológica. Ativistas como Cody Wilson, um dos pioneiros das armas impressas, desenvolveram métodos para contornar os sistemas de detecção, em um processo que ele ironicamente apelidou de “Hochulization”. A resposta da governadora é desafiadora: “Diga a Cody que eu o superarei da próxima vez”.

Essa postura combativa se estende à vigilância. Questionada sobre o uso de câmeras da Flock, que utilizam leitores automáticos de placas de veículos, Hochul admite a necessidade de “grades de proteção”. A tecnologia, financiada em parte por verbas estatais, gera uma reação bipartidária contra a vigilância em massa. A governadora se diz contra um “Big Brother”, mas defende o uso de tecnologia para combater o crime. A tensão é palpável: a mesma lógica que justifica monitorar uma impressora 3D para impedir a criação de uma arma pode ser usada para monitorar o cidadão comum. É uma linha tênue que o governo de Nova York se propõe a gerenciar, mas cuja implementação é complexa e controversa.

A série de políticas de Hochul, incluindo uma moratória na construção de novos data centers para avaliar seu impacto energético, sinaliza uma mudança de paradigma. A regulação da tecnologia deixou de ser uma questão de nicho para se tornar central na agenda política. As divisões tradicionais de esquerda e direita se mostram insuficientes para enquadrar o debate, que agora gira em torno do eixo intervenção versus liberdade. O experimento de Nova York não oferece respostas fáceis, mas estabelece o campo onde as futuras batalhas sobre o papel da tecnologia na sociedade serão travadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Verge