O governo britânico acaba de colocar em jogo um novo framework de compras públicas de tecnologia em nuvem, o G-Cloud 15, com um valor estimado de £14 bilhões (cerca de R$ 98 bilhões) ao longo dos próximos quatro anos. A iniciativa visa simplificar a aquisição de serviços de cloud para o setor público e, crucialmente, direcionar uma fatia maior desses gastos para pequenos e médios fornecedores locais.
A ambição declarada é uma resposta direta a uma realidade de mercado concentrada. Gigantes como Amazon Web Services e Microsoft Azure detêm, segundo estimativas, cerca de 80% do mercado de infraestrutura de nuvem no Reino Unido. A tese do governo é que, ao facilitar o acesso de PMEs, a nova estrutura poderá fomentar a competição e a soberania digital. A questão, no entanto, é se a política pública consegue, na prática, reverter a força gravitacional dos hyperscalers.
A soberania em jogo
A iniciativa vai além de uma simples política de fomento a PMEs. Analistas, como Roy Illsley da Omdia, apontam que o movimento se insere em um esforço mais amplo do Reino Unido para desenvolver uma capacidade de nuvem soberana, ecoando debates similares na União Europeia. Embora 90% dos fornecedores aprovados no novo framework sejam PMEs, a aprovação não garante contratos. O ceticismo é alimentado por precedentes dolorosos, como a liquidação da operadora local UKCloud em 2022, que sucumbiu culpando justamente o domínio dos players globais.
O desafio é estrutural. Os maiores provedores de nuvem não apenas dominam o mercado, mas também controlam a maior parte da infraestrutura utilizada pelo governo, saúde e educação. Para que o cenário mude, seria necessária não apenas a vontade política, mas também a existência de capacidade técnica e escala entre os fornecedores locais para atender a essa demanda. A dúvida que paira é se o G-Cloud 15 será diferente de outras iniciativas bem-intencionadas que acabaram atropeladas pela força comercial das big techs.
O diabo nos detalhes
Críticas sobre a execução do programa já emergem. Jake Madders, cofundador da Hyve Managed Hosting, descreveu o processo de aplicação para o G-Cloud 15 como um "caos completo", citando mudanças de requisitos sem aviso prévio e prazos irrealistas. Segundo ele, a falta de um mecanismo de apelação ou de feedback para os aplicantes torna o processo opaco e contradiz o objetivo de apoiar empresas menores, que não dispõem de equipes dedicadas a licitações.
A métrica de sucesso, como aponta Madders, não será o número de PMEs na lista de fornecedores, mas quanto dos £14 bilhões chegará de fato aos seus caixas. O governo alega que um sistema de classificação modernizado ajudará as PMEs a serem encontradas, mas a ferramenta de pouco serve se o processo para acessá-la for excludente. O risco é que a meta de participação se torne apenas um número para manchetes, sem impacto real na distribuição de receita e na competição.
Com o início das operações previsto para setembro, o teste decisivo para o G-Cloud 15 não será seu lançamento, mas a alocação dos primeiros bilhões em contratos. A resposta definirá se o Reino Unido está de fato construindo um ecossistema digital mais diverso ou apenas reforçando, involuntariamente, o oligopólio existente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





