A decisão do governo do Reino Unido de assumir o controle da British Steel, retirando-a das mãos da chinesa Jingye, abriu uma nova frente de atrito diplomático com Pequim. Em um comunicado duro, o Ministério do Comércio da China acusou as autoridades britânicas de agirem “à força” sob o pretexto de segurança nacional, ignorando as contribuições da Jingye para a economia local.

O movimento britânico, justificado como uma medida para proteger o futuro da produção de aço no país, é um sintoma claro de uma era de crescente nacionalismo econômico no Ocidente. A disputa transcende a siderurgia e toca no nervo da relação de desconfiança mútua entre a China e as potências ocidentais, onde investimentos em setores estratégicos são cada vez mais vistos através de uma lente geopolítica, e não puramente comercial.

O protecionismo da segurança nacional

A reação de Pequim, que prometeu apoiar a Jingye em “meios legais para defender seus direitos”, eleva a disputa a um novo patamar. O governo chinês invoca o Acordo de Proteção de Investimentos entre os dois países, enquadrando a ação britânica não como uma decisão soberana de política industrial, mas como uma possível quebra de tratado internacional. Para a China, a questão é se seus capitais ainda são bem-vindos no Ocidente ou se as regras do jogo podem mudar de acordo com o vento político.

Este episódio não é isolado. Ele espelha o escrutínio rigoroso que investimentos chineses enfrentam nos Estados Unidos, através do comitê CFIUS, e em toda a União Europeia. O termo “segurança nacional” tornou-se uma justificativa ampla para intervenções que, em outra década, seriam vistas como protecionismo puro e simples. A mensagem enviada a investidores de Pequim é clara: o acesso a ativos de infraestrutura e indústria de base no Ocidente não é mais garantido.

Para o Reino Unido, a nacionalização resolve um problema doméstico de curto prazo — a potencial falência de um pilar de sua indústria — mas cria uma incerteza de longo prazo. Ao antagonizar Pequim, o país arrisca afastar o mesmo capital estrangeiro que buscou atrair com afinco no cenário pós-Brexit. A batalha pela British Steel é um microcosmo do dilema ocidental: como proteger setores estratégicos sem fechar as portas para o investimento global que ainda se faz necessário.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney