Peter Oppenheimer, o estrategista-chefe global de ações do Goldman Sachs, está colocando números concretos por trás de um alerta que fez em agosto: o setor de tecnologia pode estar inflando uma “bolha de lucros”, e não necessariamente de valuation. Em uma nova análise, o banco argumenta que o risco não está na euforia dos investidores, mas na própria mecânica que sustenta os resultados trimestrais das gigantes de tecnologia.

Segundo reportagem da revista Fortune, a tese central é que a corrida pela infraestrutura de inteligência artificial gerou uma “competição por capital”. De um lado, empresas de tecnologia emitem dívida para financiar data centers. Do outro, governos aumentam seu endividamento para bancar projetos de infraestrutura, energia e defesa. Essa disputa por um mesmo pool de capital, em um cenário de juros já elevados, estaria tornando o dinheiro mais caro para todos e colocando em xeque a sustentabilidade do atual ciclo de lucros.

A Competição pelo Capital

A análise de Oppenheimer, antes mais anedótica, agora se apoia em dados robustos. O relatório aponta que os gastos de capital (capex) entre as empresas de tecnologia com rating AA cresceram 65% no segundo trimestre em base anual. A emissão de títulos conversíveis nos EUA atingiu US$ 135 bilhões no ano, com 44% desse volume vindo de companhias ligadas à IA. Diante disso, a equipe de crédito do Goldman elevou sua projeção de emissão de dívida corporativa de grau de investimento nos EUA para um recorde de US$ 2,3 trilhões, com um quarto do total atrelado a emissores do ecossistema de IA.

A visão encontra eco em outras casas de Wall Street. Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management, argumenta que o mundo passou de um “excesso de poupança” para uma “escassez de poupança”. Antes, havia capital demais para poucos projetos, o que derrubou os juros. Agora, a abundância de projetos (data centers, transição energética, déficits públicos) faz com que o capital, mais escasso, exija um retorno maior — ou seja, juros mais altos, especialmente nos prazos mais longos.

O Fantasma de 2008

Oppenheimer traça um paralelo com a crise financeira de 2008, mas com uma nuance importante. Na época, os bancos não pareciam excessivamente caros por métricas de valuation tradicionais. O problema estava nos seus lucros, que eram artificialmente inflados pela alavancagem atrelada a uma bolha de ativos real: o mercado imobiliário americano. Quando os imóveis colapsaram, os lucros dos bancos evaporaram. A questão que o Goldman levanta é se os lucros atuais da tecnologia, impulsionados por um ciclo de capex, seriam igualmente frágeis.

Ainda assim, o próprio estrategista aponta diferenças cruciais. Os balanços das empresas de tecnologia são, em geral, fortes, e os lucros, robustos. Os índices de cobertura de juros estão em níveis historicamente saudáveis, sugerindo que não há uma alavancagem excessiva como a dos bancos pré-2008. Além disso, a demanda por computação para IA parece genuína e crescente. O risco, portanto, não é de um colapso iminente, mas de uma compressão: uma desaceleração no crescimento dos lucros, combinada a um custo de capital permanentemente mais alto, poderia pressionar as ações de todo o ecossistema, dos hyperscalers aos fabricantes de chips.

A análise do Goldman não é uma profecia, mas um ajuste de foco. Desloca o debate da pergunta “quanto vale a ação?” para “de onde vem o lucro e quão durável ele é?”. Para um mercado acostumado a olhar para múltiplos e crescimento exponencial, a nova variável na equação é a sustentabilidade dos fundamentos em um mundo onde o capital voltou a ter custo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune