A busca de uma década do juiz Timothy Reif por 11 obras de Egon Schiele, roubadas de seu ancestral, um astro do cabaré austríaco, é o tipo de saga que mistura direito, história e uma obstinação quase pessoal pela justiça. Foi essa jornada que inspirou Michael Santoro, professor da escola de negócios da Universidade de Santa Clara, a se perguntar: e se a tecnologia pudesse acelerar essa reparação?
A resposta de Santoro e seus colegas, os professores de análise de dados Haibing Lu e Michele Samorani, é um chatbot chamado AI Provenance Research. A ferramenta de inteligência artificial foi projetada para ser uma interface amigável a um universo de dados notoriamente complexo e fragmentado: os registros de proveniência de arte. Em vez de exigir que pesquisadores e herdeiros naveguem por arquivos em diferentes idiomas e formatos, a promessa é que qualquer pessoa possa fazer uma pergunta em linguagem natural e obter uma resposta.
A memória em um banco de dados
Para sua primeira fase, o projeto se concentrou em um arquivo de imenso peso histórico: o banco de dados do museu Jeu de Paume, em Paris. O local serviu como um centro de triagem para o partido nazista, processando mais de 40 mil objetos de arte pilhados de famílias judaicas na França e na Bélgica ocupadas entre 1940 e 1944. O chatbot, em tese, traduz uma pergunta como “quantas obras foram enviadas para líderes nazistas?” em um código que vasculha esses milhares de registros.
No entanto, como aponta uma reportagem da publicação ARTnews, a execução ainda está longe da promessa. Perguntas simples retornam mensagens de erro ou arquivos desformatados com dados que não respondem à questão. A realidade atual da ferramenta expõe a distância entre a ambição algorítmica e a natureza caótica e dolorosa dos dados históricos. O projeto, que também mira a repatriação de arte indígena, revela que a tarefa de ensinar uma máquina a ler as cicatrizes da história é mais complexa do que treinar um modelo de linguagem.
O esforço é nobre e a direção, inevitável. Contudo, a iniciativa dos professores da Califórnia serve como um lembrete sóbrio. A reparação histórica não é apenas um problema de busca e recuperação de dados. Cada linha em um arquivo do Jeu de Paume representa uma vida interrompida e uma herança cultural fraturada. A questão que permanece é se um algoritmo, por mais sofisticado que seja, pode ser treinado para compreender o peso do que está procurando.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews




