A recente reunião de centenas de cientistas e autoridades no estado do Oregon, nos EUA, tinha um único e alarmante foco: a baleia cinzenta. A espécie, que migra pela costa oeste americana, viu sua população cair pela metade na última década. Só no verão passado, 187 carcaças foram encontradas em praias da região, um sinal visível de uma crise que se desenrola sob as águas.

Segundo reportagem da publicação ambiental Grist, a principal teoria para o colapso é o aquecimento acelerado do Ártico, que dizima a fonte de alimento das baleias. A tese do artigo, no entanto, não é apenas climática, mas profundamente política. A administração federal americana tem ignorado os prazos legais para responder a uma petição que busca recolocar a espécie na lista de animais em perigo, levando a uma iminente batalha judicial com grupos de conservação.

Do sucesso à crise

Há uma ironia trágica na situação da baleia cinzenta. Após ser quase extinta pela caça comercial no século XIX, a espécie se tornou um dos maiores casos de sucesso da conservação. Protegida por leis a partir dos anos 1970, sua população na costa leste do Pacífico se recuperou de tal forma que, em 1994, o governo americano a removeu da lista de espécies ameaçadas. O que era um símbolo de esperança, agora se torna um emblema da era do Antropoceno.

A ciência por trás do declínio é direta. As baleias cinzentas se alimentam de pequenos crustáceos nas águas do Ártico durante o verão para acumular energia para uma das mais longas migrações de um mamífero, até as águas do México, onde dão à luz. Com o Ártico aquecendo quatro vezes mais rápido que o resto do planeta, o ecossistema que sustenta essa fonte de alimento está em colapso. As baleias iniciam sua jornada já desnutridas, resultando em menos nascimentos e um número crescente de mortes por inanição.

Ciência sob pressão

O drama biológico espelha um drama político. A reportagem descreve um clima de tensão na conferência científica, com pesquisadores — muitos deles funcionários do governo ou dependentes de verbas federais — pisando em ovos para evitar temas políticos. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência responsável pelo monitoramento, está no centro da controvérsia, tendo perdido o prazo para responder à petição e atrasado a divulgação da contagem de nascimentos de filhotes.

Para grupos como o Earth Island Institute, a hesitação é calculada. A inércia da agência levou três organizações a notificarem a intenção de processar o governo. Uma vez que uma espécie é listada como ameaçada, a lei exige que agências federais desenvolvam um plano de recuperação e abre portas para financiamento de pesquisa e proteção de habitat. A medida, argumentam os ambientalistas, poderia “comprar tempo para resolvermos o problema maior das mudanças climáticas”. A desconfiança é tamanha que números recentes da NOAA, sugerindo uma recuperação da população, são vistos com ceticismo pela comunidade científica, que os considera “fisicamente impossíveis”.

Enquanto a batalha legal não começa, iniciativas como o projeto Whale Safe tentam mitigar os danos, usando tecnologia para mapear a presença de baleias e pedir que navios reduzam a velocidade em áreas críticas, uma medida que pode diminuir fatalidades por colisões. Contudo, são ações paliativas. A ciência, como disse um biólogo à Grist, já fez seu trabalho ao diagnosticar a gravidade da situação. A sobrevivência da baleia cinzenta depende agora de os formuladores de políticas colocarem essa ciência em prática.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Grist