Em algum espaço público de Nova York, uma estrutura modular se desdobra. Pode ser uma bancada de bar, uma tela que cria privacidade, uma superfície de trabalho. Este é o ateliê de Rujuta Rao: portátil, itinerante e sem paredes fixas. Desde janeiro, este tem sido seu espaço de criação, uma resposta arquitetônica à sua vida transitória entre os Estados Unidos e a Índia.
Para a artista, o formato não é uma limitação, mas um espelho de sua prática. Em uma conversa com a publicação Hyperallergic, Rao descreve o ateliê como um eco de seu próprio trabalho, que é "amplamente portátil e móvel". A estrutura nômade ressoa com sua pesquisa sobre a migração de pessoas, plantas e técnicas, um tema central em sua obra.
Arquitetura da Transiência
A prática dentro desse espaço é igualmente fluida. Rao trabalha de forma circular, movendo-se entre múltiplos projetos, uma abordagem que, segundo ela, sustenta seu interesse e sua atenção veloz. As madrugadas são seu horário de pico, um momento em que o trabalho se mescla a conversas com a família e amigos na Índia, preenchendo o fuso horário que a separa de casa.
O ambiente externo não é uma distração, mas um componente ativo; cada local e as pessoas que o habitam afetam a obra em andamento. As partes modulares que compõem o ateliê são as mesmas que ela utiliza em suas performances, transformando o ato de montá-lo em um ensaio para a própria arte. O estúdio, portanto, nunca é apenas um lugar — é também uma ação.
Do Caju ao Feni: A Comunidade como Material
Essa interação com o público é um dos pilares de seu trabalho. Sua série "BAR" convida espectadores a experimentar um menu de livros de artista e bebidas, usando um balcão como interface para fomentar o diálogo. O foco é sua pesquisa sobre o feni, um destilado de caju originário de Goa, na Índia. A ironia histórica não lhe escapa: o caju, uma planta levada do Brasil para a Índia pelos colonizadores portugueses, torna-se um catalisador para construir comunidade em Nova York, séculos depois.
Através da criação e do compartilhamento de bebidas, a arte de Rao se torna um veículo para a conexão. A migração da planta espelha a sua própria, e o ato de destilar e servir transforma pesquisa histórica em experiência coletiva. O ateliê itinerante é o palco perfeito para esses encontros, que colapsam e se expandem para conter o corpo e a conversa.
Apesar da ressonância poética entre sua vida e seu estúdio, Rao admite o desejo por um espaço maior e mais estável, com recursos para criar em uma escala mais ambiciosa. É a tensão clássica entre a liberdade do nomadismo e a profundidade que as raízes permitem. Seu material favorito, o etanol, talvez seja a melhor metáfora para sua prática: uma substância que simultaneamente extrai, preserva e corrói. Como a própria memória, a arte de Rao se transforma com o tempo, levantando a tinta da página até que o texto se torne ilegível, e o ato de ler se dissolva no de beber.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





