Até para os mais experientes, a lição sobre a importância da redundância pode vir da forma mais dura. Dale Baskin, editor-chefe do DPReview, a principal publicação global sobre fotografia, perdeu quase um dia inteiro de trabalho fotográfico por conta de um cartão de memória que corrompeu. O material era destinado a uma análise de uma nova lente da Sony, e a perda obrigou o site a publicar uma galeria de imagens incompleta.

A ironia, como o próprio Baskin detalha em um artigo confessional, é que o desastre era perfeitamente evitável. A câmera utilizada, uma Sony a7 V, possui dois slots para cartão de memória, um recurso projetado exatamente para criar backups instantâneos e prevenir esse tipo de falha. Ele, no entanto, usava apenas um. O episódio transforma um debate técnico de nicho em uma aula prática sobre gestão de risco e o perigo da complacência profissional.

A complacência e o risco percebido

Baskin admite que, após duas décadas cobrindo o setor, a falha de um cartão de memória se tornou um evento tão raro em sua experiência que o risco parecia insignificante. A confiabilidade dos cartões modernos o levou a baixar a guarda. Essa é uma armadilha clássica: a escolha de usar um único cartão foi proporcional ao risco percebido, não ao risco real. A complacência se instala justamente quando um sistema parece infalível.

O caso ilustra que, embora a probabilidade de falha seja baixa, o impacto é altíssimo — especialmente quando o trabalho não pode ser refeito. A situação foi resumida de forma brutal e precisa por um leitor nos comentários do artigo original: “A desculpa do ‘cachorro comeu meu dever de casa’”. Para um profissional, não há defesa para um erro não forçado.

Redefinindo o trabalho crítico

O editor conta que sempre utilizou a redundância dos dois cartões em trabalhos para clientes, como casamentos, onde a reputação profissional está diretamente em jogo. No entanto, para o trabalho editorial do dia a dia, o rigor era menor. A lição que ele tira do incidente é uma recalibragem fundamental sobre o que constitui uma tarefa “crítica”.

A pergunta relevante, argumenta Baskin, não é se o trabalho é “profissional” ou “pessoal”, mas se “o dia pode ser refeito”. Uma caminhada pelo bairro para fotos casuais pode ser repetida. Uma viagem planejada, com locações específicas e um equipamento emprestado com prazo de devolução, não. Essa distinção é vital para qualquer criador cujo trabalho depende da captura de um momento que não voltará.

O custo de cartões de memória adicionais é um fator, mas a experiência de Baskin força uma reavaliação sobre o custo real da perda de dados irrecuperáveis. A redundância deixa de ser um luxo ou uma especificação técnica para entusiastas e se torna um pilar da disciplina profissional. É um seguro contra o imponderável, cuja apólice só se entende o valor quando o sinistro ocorre.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · DPReview