A InKind, uma plataforma de financiamento para restaurantes independentes, acaba de levantar US$ 414 milhões em uma rodada liderada pelo Citi. O aporte é o mais recente de uma sequência que já soma mais de US$ 1 bilhão nos últimos seis meses, incluindo cheques da seguradora Liberty Mutual e do gestor de ativos Magnetar, segundo reportagem da Fast Company.

O movimento sinaliza uma validação institucional para um modelo de negócio que foge ao padrão de dívida ou equity. A InKind não empresta dinheiro nem se torna sócia; ela compra créditos de consumo futuros dos restaurantes. Na prática, um estabelecimento que recebe US$ 500 mil em capital cede à InKind US$ 1 milhão em vouchers de jantar, que a fintech então vende aos seus usuários com desconto. O restaurante se capitaliza no presente e “paga” a conta honrando o serviço no futuro.

A conta como ativo

O que atrai capital de primeira linha para um setor notoriamente arriscado como o de restaurantes não é filantropia, mas dados. O modelo da InKind transforma o que seria uma coleção de pequenas e médias empresas voláteis em uma classe de ativo diversificada e mensurável. A empresa utiliza uma ferramenta interna de inteligência artificial, apelidada de “Sherlock”, para analisar a saúde e o potencial de cada restaurante antes de aprovar o financiamento.

O resultado é uma taxa de fechamento de menos de 3% entre os restaurantes financiados desde 2015 — um número drasticamente inferior às médias do setor, que podem chegar a 15% no primeiro ano. Para investidores como o Citi, a aposta não é em um único restaurante, mas em uma plataforma curada que opera sobre um portfólio de milhares de estabelecimentos e milhões de clientes, com anos de dados transacionais para mitigar o risco.

O selo do sistema

O envolvimento do Citi é mais do que um cheque; é um selo de aprovação do establishment financeiro. Bancos tradicionais historicamente consideram restaurantes independentes como clientes de alto risco, com acesso limitado a crédito. A aposta do Citi na InKind sugere um reconhecimento de que modelos alternativos e não-dilutivos podem ser não apenas viáveis, mas escaláveis e lucrativos. A fintech já é rentável há dois anos e dobra sua receita anualmente.

Para o ecossistema, a validação abre um precedente importante. O modelo ataca uma dor universal de pequenos e médios empresários: a necessidade de capital de giro e expansão sem a obrigação de ceder controle acionário ou arcar com juros bancários. A InKind já atende cerca de 8.500 restaurantes e planeja usar os recursos para financiar outros 10.000 no próximo ano, com mais de US$ 1 bilhão em capital.

O sucesso da InKind não reside apenas em seu modelo de negócio inovador, mas em sua capacidade de curadoria e análise de risco. A questão que fica é se essa abordagem representa uma solução de nicho para os melhores restaurantes ou um novo paradigma para o financiamento de PMEs em geral. A entrada de um gigante como o Citi sugere uma aposta na segunda opção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company