A maioria dos brasileiros se opõe à legalização da eutanásia e do suicídio assistido. Uma nova pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no último fim de semana, aponta que 56% da população é contrária à eutanásia, enquanto 39% são favoráveis. A rejeição ao suicídio assistido é ainda maior, com 60% de oposição.
Contudo, os números revelam uma sociedade bem menos monolítica quando o tema é a ortotanásia — a prática de interromper tratamentos que prolongam artificialmente a vida de pacientes sem chance de cura. Neste ponto, o país está perfeitamente dividido: 48% são a favor da interrupção e 48% são contra. A distinção entre uma "morte provocada" e uma "morte permitida" parece ser o eixo central que estrutura a opinião pública sobre o fim da vida no Brasil.
Entre matar e deixar morrer
A leitura dos dados sugere que a rejeição majoritária à eutanásia e ao suicídio assistido está ancorada em valores que veem essas práticas como atos de tirar a vida ativamente. A legislação brasileira reflete essa visão, tratando a eutanásia como homicídio e o auxílio ao suicídio como crime.
O impasse sobre a interrupção de tratamentos, no entanto, expõe uma zona cinzenta de grande complexidade ética. A divisão simétrica da sociedade indica que o debate não é sobre o direito de morrer, mas sobre o dever de prolongar o sofrimento. A questão que emerge é se a medicina deve usar todos os recursos disponíveis para estender a vida biológica a qualquer custo, mesmo quando não há perspectiva de cura ou qualidade de vida. É um conflito entre o imperativo de preservar a vida e a compaixão de permitir uma morte digna.
O fator geracional
O principal vetor de mudança nessa percepção é a idade. Segundo o Datafolha, a concordância com a autonomia do indivíduo para decidir sobre o próprio fim da vida é drasticamente maior entre os jovens: 63% na faixa de 16 a 24 anos apoiam a ideia, contra apenas 29% entre pessoas com 60 anos ou mais. Essa clivagem geracional é um forte indicador de que a pressão social e política por uma revisão da legislação tende a crescer nas próximas décadas.
Enquanto o arcabouço legal permanece rígido, a sociedade brasileira já demonstra estar em um processo de reavaliação de suas convicções. O debate, antes restrito a médicos, juristas e teólogos, ganha contornos públicos e evidencia uma transição de valores. A pesquisa não oferece um veredito, mas um retrato de um país que começa a confrontar a linha tênue entre prolongar a vida e estender o processo de morrer.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





