A imagem é quase uma vinheta cômica, não fosse o protagonista o presidente da República. Em uma ponta do palácio, a cozinha. Na outra, o quarto. O café, quando chega, está frio. A cerveja, quente. A queixa de Luiz Inácio Lula da Silva, feita em uma entrevista recente ao podcast Inteligência Ltda, é mais do que uma reclamação sobre a logística doméstica da residência oficial; é um veredito sobre a experiência de habitar um monumento.
Para Lula, o Palácio da Alvorada, uma das joias da coroa de Oscar Niemeyer, é 'muito belo para tirar fotografia', mas 'desumano' para morar. A crítica ataca o cerne da arquitetura modernista brasileira em sua expressão mais icônica. Projetado nos anos 1950 para ser um símbolo da nova capital, o Alvorada é uma escultura habitável, onde a escala grandiosa e as linhas puras se sobrepõem ao aconchego. A distância entre os oito quartos, a cozinha e a área da piscina, segundo o presidente, torna a rotina impraticável.
A observação de que a maioria dos presidentes chega ao palácio com '50, 60 anos, já com os filhos criados' adiciona uma camada de ironia. O espaço, pensado para representar uma nação, não parece ter sido desenhado para a realidade de quem efetivamente o ocupa. A crítica de Lula, despida de formalidades, ecoa um debate antigo no campo da arquitetura: até que ponto a forma pode se divorciar da função? A famosa preferência de Niemeyer pela beleza e pela curva encontra no café frio do presidente um contraponto prosaico, mas potente.
No fim, a fala presidencial deixa uma imagem no ar: a do poder isolado não por muros, mas por vãos arquitetônicos. Um homem em um palácio desenhado mais para a posteridade do que para o presente, onde a grandeza do traço se revela, no cotidiano, como um labirinto de corredores frios.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





