A terapia de choque do presidente Javier Milei na Argentina, que conseguiu domar uma inflação superior a 200% e render elogios de agências de risco, agora enfrenta um efeito colateral que ameaça a próxima fase da recuperação. A inadimplência em empréstimos ao consumidor subiu por 17 meses consecutivos e atingiu 12,1% em abril, o maior patamar em duas décadas, frustrando as esperanças de que o pior da dor econômica já havia passado.
O roteiro do governo contava com uma recuperação liderada pelas exportações, mas que seria ampliada e sustentada por uma retomada do consumo das famílias, alimentada pelo crédito. A leitura aqui é que o aumento do calote não é apenas um problema para os balanços dos bancos; ele atinge o coração dessa estratégia, deixando a recuperação econômica dependente de um único motor e politicamente mais vulnerável antes das cruciais eleições de 2027.
A transição dolorosa do crédito
A crise atual é, em grande parte, um subproduto do próprio sucesso no combate à inflação. Durante anos, os argentinos se acostumaram a um ambiente onde a inflação crônica corroía rapidamente o valor real de suas dívidas. Com a queda da inflação anual para cerca de 30%, essa dinâmica se inverteu. As dívidas não “derretem” mais, e as famílias enfrentam o peso total de seus compromissos financeiros, muitas vezes com salários que não acompanharam a estabilização.
Impulsionados pela estabilização inicial do governo Milei, os bancos expandiram agressivamente a concessão de crédito, voltando ao seu papel tradicional após anos atuando primariamente como financiadores do setor público. Agora, colhem as consequências. Com mais de um quarto dos tomadores de crédito considerados inaptos para novos empréstimos, segundo a consultoria 1816 Economía & Estrategia, o motor do consumo está engasgando. Sem a opção de estímulo fiscal, vetada pela própria doutrina de austeridade do governo, Milei fica com poucas ferramentas para reanimar a atividade econômica no curto prazo.
O dilema dos bancos e o risco político
Para o setor financeiro, o cenário é de um otimismo cauteloso que deu lugar à aversão ao risco. Os bancos, que viram a inadimplência atingir níveis não vistos desde a crise de 2001-2002, tornaram-se mais seletivos, restringindo o crédito justamente quando a economia mais precisa dele. O governo, através do ministro da Economia Luis Caputo, agora incentiva os bancos a renegociar dívidas, uma medida paliativa que evidencia a fragilidade do sistema. A expectativa de que a Argentina pudesse rapidamente expandir seu mercado de crédito — que representa apenas 12% do PIB, contra quase 80% no Brasil — foi adiada.
Essa dinâmica tem implicações políticas diretas. A sustentabilidade do projeto de Milei depende da percepção de melhora na economia real, algo difícil de alcançar com o consumo das famílias estagnado. Os investidores já precificam esse risco: as ações dos bancos argentinos têm tido um desempenho inferior ao do índice Merval, com o capital migrando para setores menos expostos à incerteza doméstica, como o de recursos naturais. A visão de longo prazo para a Argentina pode permanecer positiva, mas o caminho até lá se mostra mais tortuoso e dependente de uma recuperação que, por enquanto, não chegou ao bolso do cidadão comum.
O desafio argentino tornou-se um teste complexo. Não se trata apenas de gerenciar uma onda de crédito mal parado, mas de provar que uma transição macroeconômica drástica pode gerar prosperidade sustentável sem ser descarrilada por uma crise de dívida privada. A distância entre o ajuste fiscal e a recuperação do poder de compra está se mostrando maior do que o planejado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





