Há mais instrutores de ioga (cerca de 100 mil) nos Estados Unidos do que o total de empregados na indústria do carvão (aproximadamente 38 mil). O dado, que à primeira vista parece uma curiosidade, é o ponto de partida de uma análise do jornal britânico The Guardian sobre a lógica por trás da defesa ferrenha dos combustíveis fósseis por políticos como Donald Trump.
A disparidade numérica sugere que o cálculo não é puramente econômico. A tese é que o apoio ao carvão transcende a geração de empregos ou a contribuição para o PIB. Trata-se de um ato político profundamente simbólico, que mobiliza uma identidade cultural específica: a do trabalho "duro, honrado e masculino", em oposição a um mundo percebido como "decadente, cosmopolita e feminino".
A masculinidade como política energética
Nenhum político seria levado a sério se exaltasse a "dignidade dos empregos na indústria da ioga", aponta a publicação. Contudo, a romantização do mineiro de carvão é um pilar do discurso conservador americano. Essa assimetria revela que a energia se tornou um campo de batalha na guerra cultural. O carvão e o petróleo não representam apenas fontes de energia; são símbolos de uma América industrial, tradicional e, crucialmente, masculina.
A plataforma de Trump, que consistentemente busca desregulamentar o setor e reverter políticas climáticas, não pode ser entendida apenas como uma concessão a doadores ou uma estratégia de desenvolvimento. É, em grande medida, uma performance ideológica. Ao defender a indústria fóssil, ele se posiciona contra o que sua base percebe como as elites globalistas e uma agenda ambiental que desvaloriza arquétipos tradicionais de força e trabalho braçal.
O debate energético, nesse contexto, deixa de ser uma discussão técnica sobre a matriz mais eficiente ou sustentável. Ele se transforma em uma disputa sobre identidade e valores. E quando a política energética vira um proxy para quem você é, e não para o que faz sentido econômico ou ambiental, o caminho para uma transição racional se torna muito mais íngreme.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





