Daniel Dines, cofundador e CEO da gigante de automação UiPath, publicou um livro de 168 páginas intitulado "The Work That Remains". A peculiaridade: a obra foi coescrita com as inteligências artificiais Claude e ChatGPT, segundo uma entrevista do executivo à revista Fortune.

Mais do que um exercício de marketing, o processo revela um novo paradigma de produção intelectual para líderes e especialistas. Dines não apenas usou a IA como uma ferramenta de escrita, mas como uma parceira de debate, num processo que ele descreve como um "diálogo socrático". A experiência sinaliza como a autoria e a criação de conteúdo de profundidade podem ser transformadas pela tecnologia.

A IA como parceiro de sparring

O método de Dines foi sofisticado. Em vez de simplesmente pedir que a IA gerasse texto, ele usou "prompts adversariais", colocando os dois modelos de linguagem para debaterem entre si. "Esta é a teoria. Leia este artigo. Crie visões opostas", instruía ele. O resultado inicial foi um manuscrito de quase 100 mil palavras, que Dines descreveu como "extremamente prolixo". O verdadeiro trabalho, segundo ele, foi editar e reduzir o material para as 40 mil palavras finais, dando coesão à sua tese central: a IA propõe, o humano decide e a automação executa.

A abordagem resolve um gargalo comum para executivos: a falta de tempo para estruturar e redigir ideias complexas. "Tenho ideias, mas não tenho o tempo e o talento para colocá-las no papel de uma forma que possa ser consumida pelo grande público", admitiu Dines. A IA, nesse modelo, funciona como um assistente de pesquisa e um "sparring" intelectual, acelerando a passagem da concepção à execução e permitindo que o autor se concentre na estratégia e na curadoria.

A experiência também expõe os limites da tecnologia. Dines notou que a IA é tão boa quanto os dados em que foi treinada e que o feedback crítico é essencial para evitar "alucinações". O caso da UiPath não é sobre a substituição do autor, mas sobre sua amplificação. A autoria se torna um ato de direção estratégica e edição, enquanto a máquina cuida da geração inicial. A questão que fica é como o mercado editorial e os leitores irão valorizar obras nascidas dessa simbiose.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune