Imagine uma cena de Lisboa, serena e filmada com beleza sublime. Agora, sobreponha a voz de uma senhora reclamando de piolhos pubianos. Este contraste, que o diretor tailandês Ratchapoom Boonbunchachoke chama de “elegantemente pervertido”, é uma das chaves para entender seu processo criativo, revelado em uma entrevista para o MUBI Notebook. A referência é ao cineasta português João César Monteiro, que, segundo uma anedota, chegou a sabotar um plano de câmera belíssimo para “libertar o filme” de um excesso de “cinematicness”.
Essa ideia de ir contra a perfeição estética para encontrar uma verdade mais profunda parece ser o fio condutor das inspirações de Boonbunchachoke para seu filme A Useful Ghost. Não se trata de amadorismo, mas de uma escolha deliberada, como na arte naif que ele também cita como influência: artistas habilidosos que optam por desenhar com a liberdade de uma criança.
O fantasma da história
A maior influência, no entanto, parece vir de outro mestre asiático: o taiwanês Hou Hsiao-hsien. Boonbunchachoke aponta o filme Good Men, Good Women (1995) como a obra que melhor conceitualiza a ideia de espectralidade, mesmo sem ser um filme de terror. O que fascina o diretor tailandês é o que ele chama de “assombração em múltiplos níveis”: a protagonista é simultaneamente assombrada por sua história pessoal recente e pela história de sua nação, ocorrida décadas antes de seu nascimento.
É aqui que a visão de Boonbunchachoke se cristaliza. Assim como em Theo Angelopoulos, cujos filmes são profundamente gregos mas universais, a ambição é criar uma obra ancorada no contexto tailandês que transcenda suas fronteiras. A questão que o move é como filmar a passagem do tempo e o peso da história sem cair nas armadilhas do cinema convencional.
A busca não é por uma beleza polida, mas por uma ressonância que emerge da fricção entre o sublime e o mundano, o pessoal e o político. A sabotagem da imagem perfeita não é um ato de destruição, mas uma tentativa de abrir espaço para que fantasmas mais complexos — os da memória e da nação — possam finalmente aparecer na tela.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MUBI Notebook





