A fala do ministro da Indústria e Turismo da Espanha, Jordi Hereu, foi direta: por décadas, a poupança dos europeus serviu para financiar o crescimento de empresas de outros continentes. Em um evento empresarial em Barcelona, Hereu defendeu que esse fluxo precisa ser revertido para impulsionar as próprias empresas e startups do bloco.

A declaração não é um ato isolado, mas o sintoma de uma crescente ansiedade estratégica em Bruxelas. A fala do ministro ecoa o debate urgente sobre a criação de uma verdadeira União dos Mercados de Capitais, um projeto antigo que ganhou nova tração. A leitura é que a Europa, rica em poupança, possui um sistema financeiro fragmentado que acaba por exportar seu capital, especialmente para os mercados americanos, mais profundos e líquidos.

O diagnóstico: um continente rico que financia os outros

O paradoxo europeu é claro: o continente possui uma das maiores taxas de poupança do mundo, mas falha em canalizá-la para seus próprios empreendimentos de alto crescimento. Fundos de pensão e seguradoras europeias, em busca de retornos, frequentemente alocam recursos em fundos de venture capital e private equity baseados nos Estados Unidos. Esse capital, por sua vez, financia a próxima geração de gigantes tecnológicos americanos, que depois competem — e muitas vezes superam — as empresas europeias.

Essa dinâmica cria um ciclo vicioso. A ausência de um mercado de capitais unificado e de grande escala na Europa limita o crescimento de startups locais, que ou buscam financiamento do outro lado do Atlântico ou são adquiridas precocemente. A proposta de reter a poupança no continente é, portanto, uma tentativa de quebrar esse ciclo e construir um ecossistema financeiro que possa sustentar a ambição industrial do bloco.

A resposta: soberania industrial e financeira

Hereu também mencionou a necessidade de investimentos chineses condicionados à transferência de tecnologia e a urgência de uma política industrial de defesa europeia. Os pontos estão conectados. A busca por autonomia estratégica — seja em tecnologia, defesa ou energia — exige uma base industrial robusta, e essa base não se sustenta sem capital de risco em escala.

A estratégia, portanto, é dupla. De um lado, estabelecer regras claras para o capital estrangeiro, como no caso dos investimentos chineses. De outro, e mais importante, criar um ambiente doméstico onde o capital europeu encontre as melhores oportunidades de crescimento. A União dos Mercados de Capitais é o pilar financeiro dessa visão de soberania.

O desafio, contudo, permanece monumental. Harmonizar regulações fiscais e de insolvência entre 27 países é uma tarefa política complexa. A questão é se a atual pressão geopolítica será suficiente para superar décadas de inércia e interesses nacionais, transformando a necessidade de defesa em uma oportunidade industrial, como sugeriu o ministro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España