A discussão sobre desertificação está mudando de tom. O que antes era tratado predominantemente como uma agenda de conservação ambiental agora fala a língua do mercado de capitais. Na COP17 da Convenção da ONU para o Combate à Desertificação (UNCCD), realizada na Mongólia, o principal anúncio foi o lançamento do Fundo de Investimento para a Resiliência à Seca (DRIF), um veículo que pretende mobilizar US$ 400 milhões em investimentos privados.

A tese é clara: para combater a degradação do solo em escala, não basta filantropia ou verba governamental. É preciso transformar a restauração de terras em uma atividade financiável, com modelos de negócio e potencial de retorno. O DRIF é o primeiro mecanismo global desenhado para testar essa premissa, aproximando a pauta dos solos das discussões sobre finanças climáticas que já dominam outras COPs.

A arquitetura do capital paciente

O DRIF opera sob uma estrutura de blended finance, ou financiamento misto. A lógica é usar capital catalítico — recursos de governos e doadores — para mitigar o risco e atrair investidores privados. O fundo busca uma primeira tranche de US$ 40 milhões em capital de “primeira perda” (first-loss), que absorve os prejuízos iniciais de um projeto, funcionando como um colchão de segurança. O governo de Luxemburgo, parceiro na criação do fundo, já se comprometeu com € 5 milhões.

O objetivo é destravar aportes de investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras, que gerenciam trilhões de dólares mas possuem mandatos restritos quanto ao risco. Ao de-riscar os projetos, o DRIF espera canalizar recursos para iniciativas de US$ 5 milhões a US$ 20 milhões no Sul Global, focadas em infraestrutura hídrica, agricultura sustentável e soluções baseadas na natureza, como o reflorestamento de bacias hidrográficas.

Do compromisso à prática

O lançamento do fundo ataca um problema crônico das negociações sobre o tema: a dificuldade em converter compromissos voluntários em mecanismos financeiros práticos. A UNCCD estima que são necessários cerca de US$ 355 bilhões por ano até 2030 para reverter a degradação, um abismo em relação aos valores hoje mobilizados. O DRIF, embora modesto em sua meta inicial, é visto como um projeto-piloto para um modelo que pode ser replicado.

Nesse contexto, o Brasil apresentou na conferência sua meta de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN), com quase uma década de atraso. A promessa de restaurar cerca de 163 mil km² até 2030, embora tardia, posiciona o país como um candidato natural a receber investimentos de veículos como o DRIF. A capacidade de estruturar projetos bancáveis e garantir segurança jurídica será o teste decisivo para o país capturar parte desse novo fluxo de capital.

A transição de uma agenda de ajuda para uma de investimento é o movimento mais relevante da COP17. O DRIF não é apenas um fundo; é um convite para que o mercado financeiro comece a precificar o risco — e a oportunidade — da resiliência climática e da saúde do solo. Resta saber se o capital privado responderá ao chamado na velocidade e escala que a crise exige.

Com reportagem de Brazil Valley

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