A indústria do cimento, espinha dorsal da construção civil, responde por uma parcela significativa das emissões globais de carbono. A busca por alternativas mais sustentáveis levou um grupo de cientistas na Índia a uma solução inusitada: usar lodo de esgoto tratado para criar um concreto mais resistente e ecológico.

Segundo reportagem do site Xataka, a pesquisa ataca dois problemas simultaneamente: a alta pegada de carbono da produção de cimento, que exige temperaturas superiores a 1.000°C, e a gestão de resíduos sanitários. O movimento aponta para uma tese central da economia circular, onde um passivo ambiental é transformado em um ativo industrial.

Do esgoto ao canteiro de obras

O processo desenvolvido pelos pesquisadores envolve a coleta de lodo fecal de uma estação de tratamento, que é seco e submetido a um processo de pirólise — aquecimento entre 350°C e 450°C em ambiente com pouco oxigênio. O resultado é um biocarvão, material rico em carbono que foi moído e transformado em um pó fino.

Este pó foi então utilizado para substituir o cimento em misturas de concreto nas proporções de 5%, 10% e 15%. Os resultados mais promissores foram observados nas misturas com 5% e 10% de substituição. Após 91 dias de cura, a mistura com 10% de biocarvão apresentou um aumento de 21% na resistência à compressão e de 42% na resistência à flexão em comparação com o concreto convencional.

Um eco do concreto romano

A performance superior do material se deve a duas propriedades do biocarvão. Sua alta porosidade permite reter água, e seu conteúdo de sílica reage com outros compostos da mistura. Juntos, esses fatores promovem a formação contínua de carbonato de cálcio, o que endurece e fortalece o concreto com o tempo, um efeito análogo ao do concreto auto-reparável utilizado pelos romanos.

Apesar dos resultados animadores, o caminho para a aplicação em larga escala ainda exige mais estudos. É preciso avaliar a durabilidade do material frente a ciclos de congelamento e descongelamento, salinidade e temperaturas extremas. Além disso, uma análise completa do ciclo de vida é necessária para quantificar a real redução na pegada de carbono do processo.

A ideia de incorporar um derivado de fezes humanas em construções pode soar controversa, mas ilustra uma fronteira importante da ciência dos materiais. A vanguarda da sustentabilidade industrial passa, cada vez mais, por converter o que é considerado resíduo em matéria-prima de alto valor agregado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka