De tempos em tempos, o mercado editorial e a crítica cultural se debruçam sobre uma questão perene: qual o lugar do conto na era do streaming e das narrativas de mil páginas? A pergunta costuma vir carregada de um tom quase fúnebre, como se o gênero fosse uma relíquia à espera do esquecimento. Em um ensaio para a publicação literária Lit Hub, o escritor americano Jess Row vira a mesa e oferece uma perspectiva contraintuitiva: a força do conto reside justamente em sua aparente irrelevância.

Para Row, a suposta aversão do público ao formato não é um sinal de fracasso, mas a própria condição de sua potência artística. Longe de lamentar a falta de apelo comercial, ele argumenta que a obscuridade do conto é o que garante aos seus praticantes uma liberdade quase absoluta — a de escrever “como se ninguém fosse ver o que você escreveu”. A tese é que, ao operar nas margens, o gênero se torna um território fértil para a experimentação, a independência e a subversão.

O paradoxo da impopularidade

A análise de Row sobre a baixa popularidade do conto é precisa. Ele aponta para a associação do formato com tarefas escolares, uma memória afetiva que poucos guardam com carinho. Diferente de ensaios pessoais ou mesmo da poesia, os contos nunca encontraram um lar natural na internet, apesar de inúmeras tentativas. O viral de “Cat Person”, de Kristen Roupenian, em 2017, foi um momento, não uma tendência. O formato, argumenta o autor, não é “relaxante”. Exige concentração intensa e suspensão das regras, o que o torna pouco amigável para o consumo fragmentado em telas de celular.

O paradoxo é que, enquanto o conto definha por ser curto, o público parece preferir narrativas cada vez mais longas. O apetite cultural se volta para séries de televisão com múltiplas temporadas, franquias cinematográficas como as da Marvel ou Duna, e sagas de fantasia que se estendem por milhares de páginas. A preferência pela quantidade em detrimento da intensidade se reflete até mesmo na academia, onde, segundo Row, professores de literatura se dedicam quase exclusivamente ao estudo do romance, tratando formas mais curtas de ficção como inexistentes. Esse desprezo institucional reforça o isolamento do gênero.

A liberdade das margens

É nesse isolamento, no entanto, que reside a virtude do conto. Row traça um paralelo com a história de grandes mestres do formato, como Edgar Allan Poe, Franz Kafka e Jorge Luis Borges — escritores que, em vida, estavam longe de ser unanimidades populares. A marginalidade, nesse sentido, não é um acidente, mas parte da identidade do contista, que ele descreve como “lúcido, realista, ferozmente independente e em paz com seu lugar à margem de uma cultura que só ocasionalmente, de forma imprevisível, olha em sua direção”.

Essa visão é compartilhada por outros escritores contemporâneos citados no ensaio. Para Carmen Maria Machado, autora aclamada por seus contos, a escolha é natural: “Eu penso em contos”. Para outros, é uma forma de rebeldia. Manuel Muñoz, que recebeu o prestigioso prêmio MacArthur por suas histórias, afirma que o mais importante é se engajar com o que move sua mente e seu coração, independentemente do tamanho do público. A liberdade de não precisar agradar ao mercado ou se encaixar em tendências permite uma escrita mais ousada, “selvagem, irresponsável, arrogante, desafiadora”, nas palavras de Row.

No fim, a mensagem não é um apelo para que o conto seja salvo, mas um reconhecimento de sua resiliência e de seu propósito. O gênero não está à procura de validação. Ele existe em seus próprios termos, como um convite àqueles dispostos a mergulhar em sua intensidade. A provocação que fica é a de que, ao ignorá-lo, o leitor talvez esteja perdendo o que há de mais vital na literatura contemporânea.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub