O corpo sempre foi o instrumento de Izaak Brandt. Como dançarino de breaking, ele aprendeu a cair, levantar e tentar de novo. Mas nos últimos anos, essa relação foi transformada pela fragilidade. Diagnosticado com colite ulcerativa, uma doença inflamatória intestinal crônica, Brandt viu seu corpo se tornar uma fonte de dor e incerteza. Essa jornada pessoal é o cerne de “Soft Shell”, sua mais nova e íntima obra, que estreou recentemente no prestigiado Serpentine Pavilion, em Londres.
A performance inaugurou o XXIe Siècle, um novo programa global de artes performáticas, e marcou a primeira vez que o breaking, uma dança nascida nas ruas do Bronx, ocupou aquele espaço. Segundo reportagem da publicação de cultura contemporânea Hypebeast, o trabalho de Brandt não é apenas uma apresentação de dança; é a tradução de uma crise pessoal em uma linguagem artística que explora a tensão entre dureza e suavidade, força e vulnerabilidade, especialmente no universo masculino.
A armadura quebrada
A gênese de “Soft Shell” remonta a um período de turbulência na vida de Brandt, há cerca de dois anos. Enquanto sua carreira parecia decolar, com oportunidades crescentes, sua saúde, finanças e vida pessoal estavam sob imensa pressão. “Por fora, as coisas pareciam muito, muito boas”, lembrou ele. “Mas eu não estava nada bem”. Em busca de uma forma de proteger seu mundo interno, o artista se fascinou por animais como pangolins e tatus, que se enrolam em seus próprios corpos como mecanismo de defesa.
Essa ideia de uma “casca macia” — uma armadura que é, ao mesmo tempo, parte do ser vulnerável — evoluiu para movimentos, depois para esculturas de bronze e, finalmente, para uma coreografia complexa. O diagnóstico da doença apenas aprofundou essa exploração. Brandt relata que o treinamento físico e a imersão em sua prática criativa se tornaram as únicas atividades capazes de aliviar temporariamente seus sintomas. O corpo, portanto, tornou-se simultaneamente a fonte do sofrimento e o veículo para sua expressão e superação.
Da rua ao pavilhão
Em “Soft Shell”, Brandt e outros seis dançarinos transformam o gramado do Serpentine Pavilion em um palco de colisão e introspecção. Os corpos se dobram, se chocam e recuam, navegando pelo espaço com uma fisicalidade que, segundo a reportagem, nunca se torna meramente decorativa. A performance é um diálogo entre o movimento e a arquitetura, entre a energia crua do breaking e a sobriedade de uma das mais importantes instituições de arte contemporânea de Londres.
A linguagem visual é reforçada pelo figurino, com peças da marca Stone Island e calçados Salomon, duas grifes profundamente conectadas à subcultura urbana e ao streetwear. A escolha posiciona a obra na intersecção entre a cultura de rua e a alta arte, um movimento que desafia categorizações fáceis. A decisão de escalar um elenco exclusivamente masculino também foi deliberada. Brandt buscou criar um espaço onde os homens pudessem canalizar frustração e raiva “em algo que é, em última análise, muito positivo”, oferecendo uma plataforma para a expressão de emoções frequentemente contidas.
No fim, a obra reflete a própria filosofia do breaking, onde o fracasso é parte inerente do processo. Cair, errar um movimento, perder uma batalha — nada disso é o fim, mas uma etapa. “Soft Shell” materializa essa resiliência. A força, sugere a performance, não reside na ausência de vulnerabilidade, mas na capacidade de se proteger, de se abrir novamente e, acima de tudo, de continuar em movimento através de ambas as fases.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hypebeast





