O setor primário das Ilhas Baleares, na Espanha, recebeu um total de €38,2 milhões em ajudas diretas da Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia, referentes à campanha de 2025. O número, reportado pela Forbes España, consolida uma forte tendência de alta no apoio ao arquipélago, que viu os subsídios saltarem de €27,4 milhões em 2022 para o patamar atual.
O que está por trás do aumento de quase 40% em três anos não é um simples reajuste, mas uma mudança de paradigma. Trata-se do primeiro ciclo da PAC (2023-2027) a reconhecer e compensar financeiramente o chamado “fator de insularidade” — os sobrecustos estruturais que o setor agrário local suporta por operar em um território isolado. A leitura aqui é que a UE está testando um modelo de subsídio mais sofisticado, que substitui a lógica do “tamanho único” por uma que precifica desvantagens geográficas.
A política como inovação
O argumento do governo local, liderado pelo conselheiro de Agricultura, Joan Simonet, é que a medida não cria privilégios, mas corrige um desequilíbrio histórico. Produzir em uma ilha implica custos logísticos maiores, menor escala e maior dependência de insumos externos. A nova PAC transforma esse conceito em um mecanismo financeiro que direciona fundos para compensar essa realidade, apoiando 4.710 agricultores e pecuaristas nas ilhas de Mallorca, Menorca, Ibiza e Formentera.
A verba é distribuída em diferentes frentes, desde ajudas diretas à renda até incentivos para práticas mais sustentáveis, os chamados “ecorregimes”, como rotação de culturas e pastoreio extensivo. É uma inovação em política pública: em vez de apenas transferir recursos, o sistema busca modular o apoio para garantir a competitividade de produtores que, de outra forma, estariam em desvantagem estrutural. O objetivo final é garantir a viabilidade econômica do setor e a segurança alimentar no arquipélago.
O futuro do modelo e os paralelos
O sucesso da iniciativa, no entanto, não garante sua perenidade. O governo balear já se articula para a negociação da PAC pós-2027, ciente de que a Comissão Europeia propôs uma redução no orçamento geral destinado à política agrícola. O caso das Baleares torna-se, assim, um estudo de caso para defender a manutenção — e o reforço — de mecanismos de coesão territorial contra pressões por cortes orçamentários.
Para um país continental como o Brasil, a experiência europeia oferece um paralelo instigante. Embora não tenhamos ilhas na mesma acepção, o território brasileiro é marcado por “fatores de insularidade” próprios: o “Custo Amazônia” para a produção sustentável, os desafios logísticos do Centro-Oeste ou as condições do semiárido nordestino. O modelo balear sugere que quantificar e compensar diretamente essas desvantagens pode ser uma ferramenta mais eficaz para o desenvolvimento regional do que incentivos fiscais genéricos.
O caso das Baleares transcende, portanto, uma questão agrícola local. Ele se torna um laboratório para o futuro das políticas de desenvolvimento em grandes blocos econômicos. A questão que permanece é se esses mecanismos corretivos e customizados conseguirão sobreviver a pressões orçamentárias e à centralização política, ou se permanecerão uma exceção bem-sucedida. A resposta indicará o compromisso real com a coesão territorial e oferecerá lições a outras nações que lidam com suas próprias desigualdades estruturais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





