Apesar de todos os partidos políticos, da esquerda à direita, reivindicarem a bandeira da classe trabalhadora, os parlamentos do mundo seguem povoados por uma elite profissional. Um estudo abrangente, que analisou 97 democracias, revela um abismo entre o discurso e a prática: enquanto cerca de metade da força de trabalho é composta por trabalhadores de serviços, operários ou pessoal administrativo, apenas 2% dos legisladores nacionais, em média, vêm dessa origem. Nos Estados Unidos, o número é ainda menor nas assembleias estaduais: 1%.
Segundo a pesquisa, publicada pela Fortune a partir de um artigo do The Conversation, essa sub-representação não é um acidente, nem reflexo de falta de qualificação ou interesse. A tese é que o sistema político possui barreiras estruturais que filtram ativamente candidatos da classe trabalhadora. O resultado é uma governança com menor sensibilidade a pautas como redes de proteção social e direitos trabalhistas.
O funil invisível
O que impede, então, que a classe trabalhadora ocupe mais assentos no poder? A pesquisa aponta para uma dinâmica dupla. Primeiro, o custo pessoal de uma campanha eleitoral. Para um profissional de 'colarinho branco' — um advogado ou executivo — é mais factível pausar a carreira por meses, absorvendo riscos financeiros e de reputação. Para um garçom, motorista ou operário, a mesma jornada implica um risco existencial, com contas a pagar e sem a segurança de um emprego ao qual retornar.
Em segundo lugar, os 'gatekeepers' do sistema político — partidos e grupos de interesse — internalizam essa dificuldade. Mesmo com a melhor das intenções, os líderes partidários tendem a recrutar candidatos que percebem como mais 'viáveis' para a dura maratona eleitoral, ou seja, profissionais liberais e com formação superior. O resultado é um ciclo vicioso: por entenderem as barreiras que os trabalhadores enfrentam, os partidos acabam por não os recrutar, perpetuando sua ausência dos espaços de decisão.
O custo da ausência
A pesquisa argumenta que essa distorção representativa tem consequências tangíveis. Governos com menos políticos de origem trabalhadora tendem a ter programas sociais menos generosos, regulações empresariais mais frouxas e proteções ao trabalhador mais fracas. O fenômeno é global e transcende modelos eleitorais. Mesmo em países com financiamento público de campanha, como Alemanha e Bélgica, ou com alta densidade sindical, como a Finlândia, a representação da classe trabalhadora nos parlamentos não passa de 5%.
Figuras como Alexandria Ocasio-Cortez nos EUA, ex-barwoman, ou Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, ex-metalúrgico, atraem enorme atenção midiática justamente por serem exceções que confirmam a regra. O estudo sugere que a solução passa por reformas deliberadas, como a criação de programas de treinamento e bolsas específicas para candidaturas de trabalhadores, visando quebrar as barreiras que mantêm a política um clube restrito.
Sem um esforço consciente para nivelar o campo de jogo, a retórica política continuará a exaltar o trabalhador, enquanto as cadeiras do poder permanecem ocupadas por uma classe profissional que, por mais bem-intencionada que seja, não compartilha da mesma experiência vivida.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





