Há uma generosidade particular no gesto de um mestre que se inclina para ouvir um estreante. Quando o mestre é Damon Galgut, vencedor do Booker Prize por “A Promessa”, e ele não apenas entrevista, mas também edita as linhas do primeiro romance de Faraaz Mahomed, a conversa transcende o protocolar. Ela se torna um espaço de reflexão sobre o próprio ofício da escrita, especialmente quando o autor em questão é também psicólogo e ativista de direitos humanos, vivendo entre Joanesburgo e Nova York.
Nesse diálogo, publicado pelo site literário Lit Hub, a questão central não é o enredo de “Mother/Land”, o romance de estreia de Mahomed, mas sim os mundos que colidem para formá-lo. “Qual é o cruzamento, se houver, entre esse mundo [da saúde mental e dos direitos humanos] e sua ficção?”, pergunta Galgut. A resposta de Mahomed é a tese de seu trabalho e, talvez, de uma geração de escritores para quem a arte não é um escape da realidade, mas uma forma de metabolizá-la. A psicoterapia, afinal, não seria também uma forma de contar histórias?
A herança do divã e do apartheid
Para Faraaz Mahomed, a conexão entre o consultório do terapeuta e a página em branco é direta. Seu primeiro romance, ainda inédito, detalhava o funcionamento interno de uma sessão de terapia e a questão existencial sobre o que faz a vida valer a pena. Em “Mother/Land”, essa lente psicológica se volta para uma ferida social e histórica. A narrativa, que aborda movimentos como Rhodes Must Fall e Black Lives Matter, ancora-se em um trauma político que é, ao mesmo tempo, visceralmente pessoal: a desapropriação de imóveis de sua família durante o apartheid na África do Sul.
Essa sobreposição do político no pessoal é o que, segundo Mahomed, transforma a vastidão de uma ferida social em algo íntimo e narrável. Ele cita autores como Abdulrazak Gurnah e Hisham Matar como referências nessa arte de encontrar formas pessoais de se conectar com o político. A experiência de seu bisavô, despojado de sua propriedade, não é apenas um fato histórico, mas um “quebra-cabeça cósmico” cujos efeitos ecoam por gerações. A escrita, nesse contexto, torna-se menos uma escolha e mais uma inevitabilidade, um desdobramento natural de sua trajetória profissional e de sua herança familiar.
A psique da diáspora
Ambientado entre a Cidade do Cabo e Nova York, o romance espelha a própria vida dividida de seu autor. O protagonista, Salim, experimenta um sentimento de deslocamento, uma identidade difusa que nasce de pertencer a dois lugares e, ao mesmo tempo, a nenhum. Mahomed confessa que há aspectos de sua própria jornada na ficção: a sensação de nunca estar totalmente formado em nenhum dos mundos, o cansaço psíquico de tentar viver vidas simultâneas. É um esgotamento que nasce tanto da perda quanto da distância.
Contudo, essa divisão não é apenas fonte de angústia. Salim, assim como Mahomed, observa as semelhanças patentes entre os dois universos. A fratura geográfica revela não uma divisão intransponível, mas pontos de intersecção inesperados. O autor descreve a peculiaridade de ouvir o athaan, o chamado muçulmano para a oração, em uma barraca de pretzel em Manhattan, ou ver uma camiseta “I ♥ NY” em Fordsburg, Joanesburgo. Não são divisões, argumenta, mas sim uma “psique subcutânea” compartilhada, uma ressonância que opera sob a superfície das diferenças culturais e históricas.
Questionado por Galgut se a escrita o tornou mais ou menos neurótico, Mahomed oferece uma resposta que ilumina a função da arte. A neurose, diz ele, não desaparece. A escrita não a cura, mas a altera, dando-lhe um texto, uma linguagem, um lugar para residir fora do eu. É uma forma de conter o que parece incontível. Talvez o processo se assemelhe à sua outra disciplina, a corrida. Correr, para ele, é atingir o limiar da falta de ar, a fronteira da mortalidade, e simplesmente esperar. É um ato que limpa a poeira da mente e a angústia neurótica — um esforço físico para organizar o caos interno, não muito diferente do que o romancista busca fazer com as palavras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





