Uma equipe de pesquisadores da Universitat Rovira i Virgili (URV), na Espanha, reconstruiu digitalmente uma peça arquitetônica de Antoni Gaudí que se julgava perdida para sempre. Trata-se do "tornavoz", uma espécie de baldaquino acústico projetado pelo mestre catalão para o púlpito da Catedral de Mallorca, e que foi demolido em novembro de 1970, apesar de seu valor histórico.

A reconstrução, detalhada em reportagem da Forbes España, não é apenas um exercício estético. Ela representa um avanço naquilo que pode ser chamado de arqueologia digital: o uso de tecnologias de ponta para resgatar, com precisão científica, elementos do patrimônio cultural que desapareceram fisicamente. O trabalho foi realizado sem acesso a plantas ou desenhos originais, baseando-se unicamente em fotografias da época.

A arquitetura da ausência

O desafio dos pesquisadores era monumental: recriar uma geometria complexa a partir de imagens bidimensionais e fragmentadas. O primeiro passo foi construir um modelo digital exato do espaço existente. Utilizando escaneamento a laser e fotogrametria, a equipe gerou um "gêmeo digital" da catedral e do púlpito com uma nuvem de 21 milhões de pontos, garantindo uma base com 95% de precisão.

Com o palco digital montado, o foco se voltou às dez fotografias históricas disponíveis do tornavoz. Por meio de cálculos geométricos, os pesquisadores determinaram a posição original de cada fotógrafo, selecionando as cinco imagens mais fidedignas para o trabalho. A partir delas, as curvas da estrutura foram analisadas e digitalmente reconstruídas, gerando modelos tridimensionais provisórios. O processo culminou na identificação da forma parabólica que melhor se ajustava ao conjunto de dados, permitindo a recriação completa da peça.

Além da forma, a função

O projeto não se limitou a recuperar a aparência do tornavoz. A equipe também investigou sua funcionalidade acústica, a razão de sua existência. Concebido por Gaudí para amplificar e direcionar a voz do orador, o baldaquino era composto por três superfícies parabólicas. As simulações no modelo digital confirmaram a engenhosidade do projeto: a estrutura definia uma zona de rendimento acústico ótimo, projetando o som com máxima eficácia para a nave da catedral.

Essa análise funcional valida a metodologia como uma ferramenta para compreender a lógica por trás de obras perdidas. O modelo 3D final não é apenas uma imagem, mas um arquivo digital que pode ser analisado, utilizado em pesquisas e, eventualmente, reproduzido fisicamente. A pesquisa demonstra como a combinação de geometria, modelagem 3D e análise histórica pode transformar testemunhos parciais em conhecimento arquitetônico verificável.

A reconstrução do tornavoz de Gaudí é mais do que um feito técnico; é uma reflexão sobre memória e perda. A peça física, que chegou a ser admirada e desenhada por Le Corbusier, continua ausente. Contudo, seu fantasma digital agora existe como uma entidade precisa e analisável, borrando as fronteiras entre o que foi perdido e o que pode ser recuperado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España