À primeira vista, parecem duas superfícies distintas. Uma se arqueia para formar um espaldar escultural que desce até o chão; a outra se dobra para acolher o corpo. Mas na Echo Chair, o que parece separado é, na verdade, um contínuo. A cadeira, cujo nome significa “eco”, foi concebida como um único sistema, impresso em 3D numa linha ininterrupta que dissolve as fronteiras entre estrutura, superfície e ergonomia. Uma forma é o reflexo da outra, nascida da mesma geometria subjacente.

Esta peça é o mais recente resultado da colaboração entre o ZHA — o estúdio que recentemente abandonou o nome completo Zaha Hadid Architects, num movimento que sinaliza uma evolução para além da sua icônica fundadora — e a marca espanhola Nagami, especialista em impressão 3D com plásticos reciclados. O projeto representa a fusão de duas forças aparentemente opostas: de um lado, o design computacional de alta complexidade, uma assinatura do ZHA; do outro, a materialidade crua de resíduos industriais.

O algoritmo e o resíduo

A matéria-prima da Echo Chair é o PETg (tereftalato de polietileno glicol) recuperado de lixo industrial, incluindo plásticos de uso único do setor médico. O material, que seria descartado, é transformado através de um processo de manufatura aditiva em larga escala. As nervuras visíveis na superfície da cadeira não são um ornamento, mas um registro honesto do processo de fabricação, camada por camada.

O que ZHA e Nagami propõem é mais do que uma cadeira; é um manifesto sobre um novo ecossistema para o design. A pesquisa desenvolvida no ZHA Lab combina algoritmos complexos com a realidade pragmática da reciclagem, transformando o que era refugo em um objeto de desejo. É a prova de que a circularidade não precisa ser esteticamente modesta. As cores, inspiradas em paisagens naturais, reforçam essa visão, com uma variação que até incorpora um compósito de cortiça de base biológica.

Um ciclo virtuoso

Esta não é a primeira vez que os dois estúdios se unem. Uma coleção inicial de 2018 já explorava o potencial da impressão 3D no mobiliário. A Echo Chair, no entanto, refina a pesquisa, demonstrando maturidade tanto no domínio da forma quanto na aplicação do material. O resultado é uma peça que carrega o DNA formal de Zaha Hadid — as curvas sinuosas, a fluidez estrutural — mas o atualiza para uma era definida pela urgência da sustentabilidade.

Ao transformar resíduos em design, o projeto não apenas dá uma nova vida ao plástico, mas também questiona os próprios ciclos de produção e consumo. A cadeira é um objeto físico, mas também a materialização de uma ideia: a de que o lixo de um sistema pode se tornar o luxo de outro. Resta saber que outros ecos — de formas, materiais e processos — esta colaboração ainda irá gerar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen