Até o início de 2024, comprar um carro elétrico no México era um exercício de contabilidade que raramente fechava para o consumidor médio. Os veículos eram caros, superando facilmente os 700 mil pesos e posicionando-se acima até de modelos de entrada de marcas premium como BMW e Audi. Esse cenário mudou drasticamente com a chegada de fabricantes chineses, que quebraram a lógica de preços do setor.
O marco dessa transformação, segundo reportagem da publicação mexicana Expansión, foi o lançamento do BYD Dolphin Mini. Com um preço de cerca de 358 mil pesos, o modelo elétrico passou a custar praticamente o mesmo que um Nissan March topo de linha. O movimento não apenas impulsionou as vendas, mas redefiniu o campo de batalha: a primeira fase da guerra pela eletrificação, a do preço, parece ter sido vencida pela China. Agora, começa a segunda, focada no valor.
O choque de realidade
Antes da ofensiva chinesa, a indústria automotiva tradicional posicionava o carro elétrico no topo de uma escada de preços. Um híbrido custava mais que um modelo a combustão, um híbrido plug-in mais ainda, e o 100% elétrico coroava a pirâmide. A estratégia gerava uma dissonância: por que pagar o preço do SUV mais caro da marca por um veículo menor e com menos equipamentos? “Não fazia sentido para as pessoas”, explicou Ricardo Arvizu, gerente de produto da Geely no México, à Expansão.
O segredo das empresas chinesas, segundo Arvizu, está no fato de que elas desenvolveram veículos elétricos do zero, em vez de adaptar plataformas existentes de carros a combustão. Esse conhecimento de engenharia, combinado com uma escala de produção massiva, permitiu uma estrutura de custos radicalmente menor. O resultado foi um crescimento de 122,8% nas vendas de elétricos no México entre 2023 e 2024, segundo dados do Inegi, provando que havia uma demanda latente esperando por um preço acessível.
A nova fronteira da competição
Com a chegada de modelos como o Dolphin Mini, a concorrência foi forçada a reagir. Fabricantes como JAC e Renault, que vendiam seus elétricos por quase 500 mil pesos, tiveram que cortar seus preços para menos de 400 mil. A mensagem para o mercado foi clara: o elétrico não é mais um artigo de luxo, mas uma alternativa viável ao carro a combustão, muitas vezes entregando mais tecnologia e conectividade pelo mesmo valor.
Para as montadoras tradicionais, o desafio agora é outro. Se não conseguem competir no preço de entrada, precisam justificar por que um consumidor deveria pagar mais. A disputa migra da etiqueta para a proposta de valor. A Kia, por exemplo, aposta na “tranquilidade” do cliente. Horacio Chávez, diretor da marca no México, argumenta que o valor de seus veículos está na engenharia, autonomia, segurança e, crucialmente, no ecossistema de pós-venda. Isso inclui desde a instalação do carregador doméstico até uma rede de assistência técnica capacitada e disponibilidade de peças — fatores que se tornam decisivos na experiência de posse de um elétrico.
A primeira batalha da eletrificação no México foi sobre o preço, e as fabricantes chinesas a venceram de forma disruptiva, abrindo o mercado para uma nova classe de consumidores. A segunda batalha, que se desenrola agora, será definida pelo valor agregado. A questão não é mais se os elétricos são viáveis, mas qual ecossistema — de infraestrutura, serviço e confiança — o consumidor irá escolher para fazer sua transição energética.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





