Uma exposição itinerante, atualmente na Filadélfia, se propõe a revisitar o legado da seita cristã conhecida como Shakers, cuja influência no imaginário do design perdura até hoje, sintetizada na imagem de suas icônicas e depuradas cadeiras. A mostra, intitulada “The Shakers: A World in the Making”, reúne objetos históricos e obras de arte contemporânea inspiradas na estética do grupo.

Contudo, segundo uma análise crítica do portal Hyperallergic, a exposição falha em seu principal potencial: desconstruir o mito do minimalismo Shaker. Ao invés de explorar as contradições de uma comunidade que era ao mesmo tempo rígida e libertária, a curadoria opta por reforçar a narrativa convencional de que os Shakers teriam, quase por acidente, antecipado os ideais do design moderno, deixando de lado a complexidade e a vitalidade de sua cultura.

O paradoxo da simplicidade

A principal tensão apontada na análise reside nos próprios objetos expostos. Como conciliar a imagem de minimalistas estritos com tapetes de lã repletos de cores e padrões, como o produzido pela Irmã Elvira Hulett no final do século XIX? Ou com os chamados “desenhos de dom” (gift drawings), obras visionárias criadas exclusivamente por mulheres da seita que expressavam mensagens divinas através de padrões densos e ornamentados?

A crítica argumenta que a exposição, com seu design frio e austero, não apenas ignora essas contradições, como também falha em capturar o “calor vivaz” da cultura Shaker. A seita era conhecida por seus cultos extáticos, com danças, cantos e gritos, uma realidade distante da sobriedade clínica evocada pela montagem. A questão que emerge não é resolver o paradoxo, mas reconhecê-lo como parte essencial da identidade do grupo.

Inovação com humanidade

Outro ponto subexplorado, segundo a fonte, é a conexão entre o artesanato Shaker e seu profundo senso de comunidade e cuidado. Cadeiras de rodas feitas à mão, berços para adultos enfermos e até uma bota com sola elevada, desenhada para uma irmã com pernas de comprimentos desiguais, demonstram um talento para a inovação que era inseparável de um compromisso com o bem-estar coletivo.

Ao isolar esses itens em paredes brancas, a exposição os trata como artefatos de design, e não como testemunhos de uma cultura de cuidado. A insistência em conectar a simplicidade Shaker ao minimalismo moderno — como na justaposição com obras contemporâneas — parece forçada. A elegância mecânica do design moderno, argumenta a crítica, pertence a um universo distinto da simplicidade, por vezes ornamentada, dos Shakers.

Ficam no ar as perguntas que a exposição poderia ter explorado: qual a diferença entre simplicidade e minimalismo? É possível buscar a inovação sem cair na desumanidade industrial? Em uma era de inteligência artificial e automação, o legado de um grupo pacifista focado no artesanato e na comunidade talvez tenha mais a ensinar do que apenas lições de estética.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic