O principal projeto do London Design Festival deste ano é uma estrutura que materializa a complexa e, por vezes, tensa relação entre Reino Unido e Índia. Batizado de “The Pangolin Shield”, o pavilhão projetado pelo Studio Saar, um escritório com raízes nos dois países, usa o design para reinterpretar símbolos de poder e resiliência.

A obra, localizada na área recém-pedonalizada da via The Strand, entre a Somerset House e a India House — antigos centros de poder naval britânico e atual sede da alta comissão indiana —, não poderia ter um endereço mais simbólico. Segundo reportagem da publicação especializada Dezeen, a instalação busca justamente catalisar uma conversa sobre o novo capítulo na relação entre as duas nações.

Símbolos de controle e proteção

A essência do pavilhão está na sua cobertura. Sobre uma grade de bambu, fortalecida com aço, repousam duas camadas de escudos com origens antagônicas. A primeira é composta por escudos policiais de “lathis” (um tipo de bambu), desenhados pelos governantes coloniais britânicos para conter protestos na Índia. Por cima deles, uma camada de “knups”, tradicionais escudos de chuva trançados, usados por agricultores no nordeste indiano para se protegerem do clima.

A leitura aqui é direta: um objeto de opressão é literalmente coberto e ressignificado por um objeto de proteção e subsistência. Ananya Singhal, cofundador do Studio Saar, aponta a beleza na ideia de transformar uma ferramenta de controle em parte de uma estrutura que oferece abrigo. O movimento transforma a função original do escudo, convertendo um símbolo de agressão em um teto protetor.

Entre história e conservação

O nome e a forma da estrutura adicionam outra camada de significado. A semelhança com um pangolim, mamífero coberto de escamas e o mais traficado do mundo, serve como um comentário sobre vulnerabilidade e defesa. O pavilhão, portanto, não apenas revisita a história colonial, mas também a conecta a crises contemporâneas, como a da conservação ambiental.

Ironicamente, a estrutura sofreu danos durante o transporte da Índia para o Reino Unido e será exibida com andaimes internos como medida de precaução. Essa fragilidade não intencional acaba por reforçar a narrativa da obra: um testemunho da delicadeza das relações, da memória e da própria estrutura física que a representa.

Para o Studio Saar, o projeto encapsula a filosofia de que coisas “pequenas, humildes e artesanais” podem ser combinadas para criar algo notável. No coração de Londres, o pavilhão é um lembrete de que a história, assim como seus artefatos, pode ser desmontada e reconstruída para abrigar novas narrativas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen