O governo da Espanha decidiu que a herança da crise financeira de 2008 continuará a ser um assunto do Ministério da Economia. As participações estatais no gigante bancário CaixaBank e na Sareb, a sociedade de gestão de ativos tóxicos conhecida como “banco ruim”, não serão transferidas para a holding industrial do Estado (SEPI). Em vez disso, permanecerão sob o controle direto da pasta econômica.
A decisão, revelada em um anteprojeto de lei em consulta pública, conforme reportagem da Forbes España, é mais do que um mero rearranjo burocrático. Ela envia um sinal claro sobre a natureza desses ativos: não são considerados investimentos estratégicos ou industriais, como as posições do Estado em empresas como Telefónica ou Indra, mas sim o passivo remanescente de um dos maiores resgates bancários da história europeia, um problema a ser administrado e, eventualmente, liquidado.
Herança, não Estratégia
A justificativa apresentada no texto legal é explícita. O objetivo é dar “continuidade à política de gestão atual”, reconhecendo que as participações “não têm caráter estratégico, nem industrial, mas são o resultado de processos de reestruturação bancária”. Em outras palavras, o Estado espanhol atua aqui não como um investidor de longo prazo, mas como um gestor relutante de um portfólio herdado da crise. Manter o controle no Ministério da Economia, o arquiteto original do resgate, reforça a missão de buscar uma saída ordenada que maximize o retorno aos cofres públicos, sem a interferência de uma agenda industrial.
Este movimento ocorre em paralelo ao desmonte do Fundo de Reestruturação Ordenada Bancária (FROB), o veículo criado no auge da crise. Com sua missão de saneamento praticamente concluída, a estrutura do FROB será transformada em uma nova autoridade de prevenção à lavagem de dinheiro. É o fim simbólico de uma era. A BFA Tenedora de Acciones, a sociedade que detém as ações do CaixaBank e que agora absorverá a participação na Sareb, passará a ser uma sociedade mercantil estatal comum, mas com um mandato claro de desinvestimento.
O desafio, no entanto, permanece. A decisão resolve o “onde” a gestão será feita, mas não o “como” e o “quando” da venda. A obrigação de desinvestir existe, mas o momento ideal depende de condições de mercado e de um cálculo político delicado. Ao centralizar o poder no Ministério da Economia, Madri garante que a decisão final sobre a venda de bilhões de euros em ativos bancários será primariamente fiscal e macroeconômica, e não parte de uma política industrial mais ampla. O caso espanhol é um lembrete de que a conta de uma crise financeira pode levar mais de uma década para ser fechada — e, mesmo assim, deixa um longo rastro no balanço do Estado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





