A discussão sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho acaba de ganhar um novo capítulo, com contornos de capital-estatismo. Em julho, cerca de 200 economistas e cientistas da computação, incluindo 16 laureados com o Nobel, publicaram uma carta alertando que a IA pode gerar “deslocamento de empregos em grande escala”. Quase simultaneamente, uma proposta do senador Bernie Sanders para criar um fundo soberano que deteria ações de empresas de IA começou a ganhar tração, ecoando o sentimento de 70% dos americanos que, segundo uma pesquisa, apoiam a medida.

A ideia é sedutoramente simples: se a IA vai gerar uma riqueza sem precedentes e, ao mesmo tempo, extinguir postos de trabalho, o Estado deveria se tornar um acionista compulsório, distribuindo os dividendos dessa revolução para toda a sociedade. A tese deste debate, no entanto, é que a aparente simplicidade da proposta esconde um labirinto de desafios políticos e de governança. A questão não é apenas se o governo deve intervir, mas como ele poderia fazê-lo sem criar distorções ou sucumbir à ineficiência.

O modelo do Alasca e o capital-estatismo

O conceito de fundo soberano não é novo. O mais famoso exemplo americano é o Fundo Permanente do Alasca, que desde 1976 acumula receitas excedentes da exploração de petróleo e distribui dividendos anuais aos residentes do estado. Em 2022, cada morador recebeu mais de US$ 3.200. É este modelo de “dividendo social”, financiado pela exploração de um recurso valioso, que inspira os proponentes de um fundo para IA.

Curiosamente, o governo americano já flerta com a ideia de se tornar investidor. Desde 2025, a administração federal já investiu US$ 27 bilhões em participações acionárias em setores estratégicos, como semicondutores e aço, em empresas como Intel e U.S. Steel. Segundo a reportagem da Fortune, a Casa Branca estaria disposta a estender essa estratégia para a IA. A diferença crucial é que, hoje, os lucros dessas participações voltam para o Tesouro sem destinação específica, não para o bolso dos cidadãos.

Da teoria à prática: os desafios da governança

Transformar a ideia em realidade, contudo, abre uma caixa de Pandora. Como o fundo adquiriria as ações: via imposto, compra direta ou outra modalidade? Quem decidiria em quais empresas de IA investir, um setor notoriamente volátil e de alto risco? O que aconteceria se os investimentos gerassem prejuízo? Países como Canadá, Reino Unido e Coreia do Sul já exploram fundos de IA, mas a complexidade da empreitada é imensa.

Mesmo que o governo se torne um acionista relevante, nada garante que os lucros seriam, de fato, usados para mitigar os danos sociais da automação. Sem regras claras e uma governança robusta, o capital poderia ser usado para fins políticos ou simplesmente para cobrir buracos no orçamento. O desafio, portanto, é menos tecnológico e mais político: construir um consenso e uma disciplina de gestão que, hoje, parecem em falta em Washington.

A proposta de um fundo soberano para IA representa uma tentativa de recalibrar o contrato social para uma nova era tecnológica. A ideia de um “dividendo de IA” para todos é poderosa, mas sua execução exigirá uma engenharia política e financeira tão sofisticada quanto os algoritmos que ela busca regular. A questão que fica no ar é se o sistema político está à altura do desafio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune