A febre da inteligência artificial entrou oficialmente no radar do Federal Reserve, mas não pela ótica da produtividade, e sim do risco sistêmico. Segundo reportagem da agência Reuters, autoridades do banco central americano começaram a debater se o frenesi de investimentos para erguer a infraestrutura da IA — especialmente data centers — está inflando uma bolha com potencial para desestabilizar o setor financeiro.
A discussão, por enquanto, é mais um exercício de cautela do que um alarme de incêndio. O consenso é que uma crise nos moldes da quebra do mercado imobiliário de 2008 não é iminente. Ainda assim, a magnitude do capital, a incerteza sobre os retornos e a crescente complexidade das estruturas de financiamento acenderam um alerta em Washington.
Euforia vs. Cautela
Dentro do Fed, as opiniões se dividem. De um lado, o presidente do Fed de Nova York, John Williams, adota um tom mais sereno. Para ele, não se trata de uma bolha, mas de um “nível muito alto de entusiasmo” enquanto investidores tentam precificar uma tecnologia disruptiva. Williams nota que o endividamento tem sido absorvido por empresas de alta lucratividade, o que mitiga o risco.
Do outro lado, o ceticismo ganha corpo. Jeff Schmid, presidente do Fed de Kansas City, questiona se o setor está se tornando “grande demais para falir” e se a cadeia de financiamento — envolvendo data centers, fornecedores de energia e comunidades locais — não estaria excessivamente alavancada. Mary Daly, do Fed de San Francisco, classifica a taxa de crescimento dos investimentos como “muito preocupante”, embora pondere que muitos projetos ainda estão no papel, diminuindo o risco de “ativos ociosos” no curto prazo.
Data Centers: O Novo Imóvel?
O paralelo com a crise de 2008 não é apenas retórico. Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, aponta que, embora o investimento em data centers como percentual do PIB seja menor que o pico do boom imobiliário, seu ritmo de crescimento é mais acelerado. A preocupação reside na crescente dependência de dívida para financiar essa expansão.
O risco, como apontado por Daly, é que um descompasso entre a oferta de infraestrutura e a demanda real por serviços de IA gere uma crise de superávit. A sugestão de criar um “painel de monitoramento” dedicado ao tema sinaliza que o Fed está se movendo do campo da observação para o da vigilância ativa.
A questão que paira sobre o mercado não é mais se a IA será transformadora, mas se a arquitetura financeira erguida para viabilizá-la é sólida o suficiente para suportar seu próprio peso. O debate dentro do Fed mostra que, para os guardiões da estabilidade financeira, a euforia tecnológica sempre vem acompanhada de um cálculo de risco.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





