As fronteiras entre casa, escritório, hotel e hospital estão se dissolvendo. A rotina multifacetada, acelerada pelo trabalho remoto e por novos hábitos sociais, impõe uma demanda inédita sobre os espaços que habitamos: a flexibilidade. Em resposta, uma nova safra de arquitetos e designers de interiores abandona a rigidez das plantas baixas para criar ambientes que se moldam ao usuário, e não o contrário.
A tendência foi capturada na curadoria do iF DESIGN AWARD 2026, um dos mais importantes prêmios do setor, que destacou projetos onde a arquitetura deixa de ditar o comportamento para se tornar uma plataforma adaptável. Segundo uma reportagem da revista Designboom, a tese central é que a experiência humana, o bem-estar e a capacidade de reconfiguração estão no centro do processo. Entre os premiados, está a arquiteta brasileira Anna Maya, com uma estante modular que reflete essa nova lógica.
Da Planta Fixa à Arquitetura Fluida
O movimento questiona dogmas estabelecidos, como o tradicional layout de plano aberto. No Japão, por exemplo, o modelo ‘LDK’ (sala de estar, jantar e cozinha integradas) começa a ser revisto. Embora promovam a convivência, esses espaços abertos podem carecer de privacidade à medida que a dinâmica familiar muda. A solução do estúdio DAIKYO, em colaboração com Yuko Nagayama and Associates, é a "Relation Wall": um sistema de divisórias móveis com isolamento acústico de alta performance e translucidez variável. Com elas, os moradores podem alternar entre um grande espaço comunal e refúgios silenciosos e isolados.
Na outra ponta do espectro, a mesma lógica se aplica a espaços mínimos. A "Modular Home" do Studio Doruk Bicer, da Turquia, prova que 49 metros quadrados não precisam ser sinônimo de sacrifício. Módulos reconfiguráveis e tecnologia inteligente permitem que um único ambiente se transforme para abrigar áreas de estar, trabalho ou descanso. Em vez de forçar o residente a adaptar seus hábitos a uma planta rígida, o cômodo se transforma em torno da atividade humana, expandindo as possibilidades de um espaço compacto.
Interação e Experiência como Programa
Essa fluidez não se limita à estrutura física, mas se estende à própria função dos espaços. Em Taiwan, o estúdio Yule Space borrou as linhas entre varejo, hospitalidade e residencial com o "Forest Book Loft". O projeto une livraria, restaurante e hospedagem em uma única estrutura de concreto aparente, com grandes aberturas de vidro que trazem a paisagem para dentro. A proposta é criar uma narrativa espacial que muda com a luz do dia e as estações, mostrando como programas múltiplos podem aprofundar a conexão com o lugar.
O princípio da adaptabilidade desce até a escala do objeto. A estante "Samba", da brasileira Maya Arquitetura, é um exemplo literal. Construída a partir de componentes circulares modulares que podem ser adicionados, deslocados ou totalmente remontados, o móvel rejeita uma forma final estática. O design convida o proprietário a se tornar um colaborador ativo, moldando a paisagem de seu interior conforme suas necessidades evoluem, num ritmo que remete à improvisação do samba. Da mesma forma, a luminária "Grammoluce", da italiana Martinelli Luce, transforma o controle da iluminação em uma experiência tátil: o usuário ajusta a intensidade da luz colocando objetos com pesos diferentes sobre sua membrana elástica.
Os projetos premiados, vindos da Itália ao Japão, da China ao Brasil, indicam que a mudança é global. A arquitetura está deixando de ser um contêiner passivo para se tornar uma plataforma dinâmica, cujo valor não está em sua forma final, mas em sua capacidade de transformação. O papel do designer, por sua vez, evolui para o de um facilitador de experiências, que entrega não um layout, mas um sistema aberto às infinitas reconfigurações da vida.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





