A transição da atual era das redes sociais para um ecossistema dominado por inteligência artificial não eliminará a criação de conteúdo, mas reescreverá sua infraestrutura de distribuição. Em conversa recente com Shane Bovel, o empresário Gary Vee argumentou que a ascensão de interfaces de voz e óculos de realidade aumentada fará com os smartphones o que os dispositivos móveis fizeram com a televisão. A tese central do encontro sugere que o hábito mecânico de rolar feeds cederá espaço para uma interação baseada em utilidade e comandos auditivos, exigindo que o mercado publicitário e os criadores de conteúdo repensem o que significa capturar atenção em um ambiente onde algoritmos não apenas sugerem, mas executam decisões de compra.

A economia de agentes e o hardware vestível

O declínio do modelo atual de redes sociais está intrinsecamente ligado à adoção de novos hardwares. Bovel e Vee concordam que a dependência do smartphone será reduzida por dispositivos focados em voz e visão computacional, como óculos inteligentes e fones de ouvido equipados com tradução simultânea e assistentes de IA. Vee projeta que, embora as primeiras execuções publicitárias nessas novas mídias possam parecer rudimentares — comparando-as aos primeiros comerciais de TV que apenas reproduziam formatos de rádio —, a maturidade da tecnologia criará um ambiente imersivo onde a vida sem o suporte de realidade aumentada parecerá limitante.

Neste cenário de interfaces invisíveis, emerge a "economia agêntica". Vee descreve um futuro próximo onde agentes autônomos assumirão o consumo de bens de conveniência. O usuário delegará a compra de itens cotidianos, como desodorantes ou ingredientes para um jantar, diretamente para a IA, eliminando o poder de conversão de anúncios tradicionais de fim de funil. Para contexto, a análise editorial reconhece que essa delegação extrema de decisões de baixo envolvimento transfere o poder de barganha das plataformas de mídia para os grandes modelos de linguagem que operam os assistentes. Consequentemente, as marcas precisarão construir preferências inabaláveis antes que a decisão seja terceirizada, elevando a importância do marketing experiencial no mundo físico, como eventos e clubes de corrida, para gerar demanda real.

A diluição sintética e o valor da atenção residual

Um dos pontos de tensão na conversa é o impacto dos bots na psicologia do criador. Bovel propõe que a atual proposta de valor das redes sociais — a sinalização de status para outros humanos — se quebra quando a audiência passa a ser composta majoritariamente por máquinas. Se um influenciador posta para validação humana, a incerteza sobre quem está do outro lado da tela desincentivaria a produção.

Vee rebate essa premissa argumentando que o resultado prático supera a pureza das métricas. Segundo o empresário, mesmo que 99% das visualizações de um vídeo sejam sintéticas, se o 1% de consumo humano continuar gerando resultados tangíveis — como vendas de produtos ou reconhecimento nas ruas —, o incentivo financeiro e social para criar permanecerá intacto. A estratégia recomendada para navegar esse período de transição é dupla: extrair o máximo de alcance das plataformas atuais, como TikTok e LinkedIn, enquanto se flerta com as novas tecnologias de IA e formatos ao vivo para entender os códigos da próxima década. A autenticidade, nesse contexto, não é medida pela ausência de ferramentas artificiais, mas pelo alinhamento entre a intenção do criador e o valor entregue ao público.

A iminente obsolescência do feed tradicional não representa o fim da influência, mas uma correção de curso em direção a ecossistemas de maior intenção. À medida que a IA automatiza o trivial e filtra o ruído digital, a atenção humana se tornará um recurso ainda mais escasso e protegido. O desafio para o capital e para os criadores não será apenas vencer algoritmos de recomendação, mas convencer agentes autônomos a não substituí-los, provando que a conexão humana ainda é o diferencial competitivo definitivo em uma internet povoada por máquinas.

Fonte · Brazil Valley | Advertising