Morreu aos 81 anos, em Xangai, o artista chinês Liang Shaoji, conhecido por uma obra que existia na fronteira entre a escultura, a biologia e a filosofia. Por mais de três décadas, ele desenvolveu um método único em que bichos-da-seda eram os principais agentes de criação. A notícia foi confirmada pela galeria ShanghART, que o representava, segundo o portal ARTnews.
A prática de Liang, batizada de 'Série Natureza' e iniciada em 1989, consistia em 'colaborar' com os insetos, direcionando-os para cobrir objetos com seus fios. O resultado é um corpo de trabalho que investiga a resiliência da vida, a passagem do tempo e os ciclos de transformação, oferecendo uma metáfora visual para a própria existência.
A seda como metáfora
O método de Liang envolvia introduzir os bichos-da-seda a objetos que iam do mundano, como sapatos, a estruturas massivas e carregadas de simbolismo, como correntes de ferro e escombros de terremotos. Com sua direção cuidadosa, os insetos transformavam esses elementos em esculturas cobertas por uma camada branca e orgânica, num diálogo vivo entre o natural e o industrial.
O contraste entre o ferro frio e a seda macia era central em sua obra mais recente, 'Mar de Nuvens', exposta este ano. A imagem, segundo o artista, evocava a força espiritual que nasce do encontro de opostos e a ideia da 'vida por um fio', inspirada ao ver um bicho-da-seda se salvar de uma queda tecendo um fio no ar.
Entre a arte e a biologia
O uso de animais vivos como 'colaboradores' artísticos gerou questionamentos, aos quais Liang respondia com uma defesa de sua abordagem. Ele afirmava não se tratar de uma 'intervenção violenta', mas de uma forma de 'cultivar o potencial' dos seres vivos com base na observação. Essa sensibilidade pode ser traçada à sua trajetória: forçado a trabalhar em uma fábrica têxtil durante a Revolução Cultural, ele mais tarde estudou 'escultura macia' e viveu boa parte da vida recluso em um templo, o que lhe rendeu o apelido de 'santo eremita'.
Sua modéstia era notória, resumida na frase que o definia: 'Eu sou um bicho-da-seda'. Premiado na China e no exterior, Liang deixa um legado que desafia as categorias tradicionais da arte. Como ele mesmo comentou sobre seu trabalho, 'a natureza se renova perpetuamente; minha criação não termina'.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





