O custo para fretar um único navio-tanque e atravessar o Estreito de Ormuz ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 1 milhão por dia. O valor, referente à rota do Golfo Pérsico para a China, representa um novo patamar para o transporte marítimo global e é um sintoma direto das tensões geopolíticas na região, segundo reportagem da revista Fortune com base em dados da Baltic Exchange.

O número, por si só, é impressionante. Um navio-tanque de grande porte na mesma rota custava cerca de US$ 208 mil diários antes da escalada do conflito. A cifra milionária não é apenas um reflexo da lei de oferta e demanda, mas a precificação explícita do risco em uma das artérias mais vitais do comércio de energia mundial, agora parcialmente obstruída por uma guerra.

A precificação do risco

A alta vertiginosa dos custos do frete é movida por dois fatores centrais: perigo e seguro. Com o conflito no Irã em seu sétimo mês, ataques a embarcações comerciais se tornaram mais frequentes, dissuadindo muitos armadores de operar na região. A diminuição da oferta de navios dispostos a correr o risco encontra uma demanda ainda urgente por petróleo, com o barril novamente acima de US$ 100.

O componente mais tangível desse novo cálculo é o prêmio do seguro. Antes da guerra, seguradoras cobravam entre 0,5% e 1% do valor dos ativos a bordo. Agora, essa taxa saltou para cerca de 10%, um custo que é repassado integralmente aos afretadores. “É tudo sobre risco”, disse à Fortune Ioannis Papadimitriou, analista principal de frete da Vortexa. A consolidação do mercado, com grandes players comprando mais embarcações para garantir suas próprias entregas, também lhes confere maior poder para ditar os preços.

A transferência de riqueza

Essa dinâmica cria uma clara divisão entre ganhadores e perdedores. Do lado vencedor estão as empresas de navegação e os investidores do setor. A Clarksons, maior corretora de navios do mundo, registrou lucro operacional recorde no último trimestre, com alta de 55% na base anual. O ETF Breakwave Tanker Shipping (BWET), um fundo focado em frete de petróleo, acumula uma valorização de mais de 3.600% no ano, sinalizando a confiança do mercado na lucratividade do setor.

Na outra ponta, as refinarias veem suas margens comprimidas entre o custo crescente do frete e o preço elevado do petróleo bruto. Inevitavelmente, essa pressão é transferida para o consumidor final, que já sente o impacto na bomba de combustível, com o preço do diesel subindo 60% desde o início do conflito.

Em tempos de instabilidade geopolítica, as ineficiências na cadeia de suprimentos se convertem em prêmios para quem controla os ativos de transporte. Como observa um analista na reportagem, desta vez não é diferente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune