O prazo oficial para o Next Generation EU (NGEU), o mais ambicioso plano de recuperação econômica da história da União Europeia, chegou ao fim. Lançado em 2020 para mitigar os efeitos da pandemia, o programa destinou à Espanha a possibilidade de captar até € 163 bilhões. Contudo, o balanço final está longe do número anunciado, levantando questões sobre a real capacidade de absorção e execução dos recursos.

Segundo reportagem da Forbes España, o desafio não está mais em Bruxelas, mas dentro das fronteiras espanholas. A discussão agora se concentra na efetividade da distribuição e no impacto concreto dos fundos, com uma parte significativa do dinheiro ainda presa na burocracia ou em estágios iniciais de implementação.

O gargalo da execução

Dos € 163 bilhões originalmente previstos para a Espanha, o país deve receber pouco mais de € 100 bilhões, após ter renunciado a uma parcela de € 60 bilhões em empréstimos. A cifra, embora expressiva, esconde uma realidade complexa: boa parte dos recursos foi direcionada para a própria administração pública, como o gestor de infraestrutura ferroviária ADIF, que se tornou o maior beneficiário. As empresas privadas, destinatárias finais que deveriam mover a economia, acabam recebendo os valores por meio de contratos públicos, um processo notoriamente mais lento.

Em contraste, iniciativas de repasse direto, como o programa "Kit Digital" para PMEs, mostram um caminho de maior agilidade, mas representam uma fração do total. A leitura é que a estrutura do plano acabou por criar um gargalo onde o dinheiro é formalmente alocado, mas sua conversão em atividade econômica real é morosa, um desafio comum em grandes programas de investimento estatal.

Legado em construção

O governo espanhol defende que dois terços do plano foram dedicados à transição verde e digital, com 1,5 milhão de beneficiários. No entanto, o verdadeiro teste do NGEU será seu legado de longo prazo. A execução lenta significa que o impacto macroeconômico do estímulo ainda está em processo e pode ser menor do que o esperado. O movimento sugere que a engenharia financeira para criar os fundos foi um feito, mas a arquitetura de sua distribuição no nível nacional provou ser o ponto fraco.

O caso espanhol serve de lição para futuras políticas de estímulo em larga escala, inclusive para debates sobre programas de investimento público no Brasil. A questão central, que transcende fronteiras, é como garantir que o capital chegue à ponta de forma eficiente. O capítulo do NGEU se encerra no papel, mas a tarefa de transformar bilhões de euros em crescimento sustentável está longe de terminar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España