O debate sobre o fim da hegemonia do dólar é um dos rituais mais longevos da economia global. Desde que o presidente Richard Nixon desvinculou a moeda do padrão-ouro em 1971, analistas de prontidão escrevem seu obituário. O tema voltou à tona com a volatilidade recente da moeda, o crescimento do comércio liquidado em renminbi e a percepção de um declínio geopolítico americano. Contudo, uma análise mais profunda sugere que os coveiros terão de esperar.
Segundo um estudo do BCG Institute repercutido pela revista Fortune, a discussão sobre a supremacia do dólar é frequentemente equivocada. A resiliência da moeda americana não reside em sua perfeição, mas na constatação de que seus principais concorrentes — o euro e o renminbi — enfrentam problemas ainda mais complexos. A liderança monetária global não é um concurso de popularidade, mas uma competição de resistência em que o dólar, apesar de suas falhas, continua sendo o participante mais preparado para suportar o peso da coroa.
O privilégio e o fardo
A expressão “privilégio exorbitante”, cunhada nos anos 1960 pelo então ministro das Finanças da França, Valéry Giscard d'Estaing, tornou-se um clichê para descrever os benefícios de emitir a moeda de reserva mundial. De fato, poder tomar empréstimos e realizar transações em sua própria moeda, que se valoriza em momentos de crise, é uma vantagem estratégica inegável. No entanto, essa visão ignora a outra face da moeda: os fardos significativos que vêm com o status.
Para que o resto do mundo acumule reservas em dólar, os Estados Unidos precisam incorrer em déficits comerciais estruturais, comprando mais do que vendem. Essa dinâmica, por sua vez, tende a manter o dólar sobrevalorizado, minando a competitividade de sua própria indústria. Além disso, a posição de emissor exige mercados de capitais abertos, profundos e líquidos, com total mobilidade de fundos. Isso implica aceitar a volatilidade do capital estrangeiro e garantir uma estabilidade jurídica e política que dê confiança aos investidores globais. Poucas nações têm a escala, a estrutura e, crucialmente, a disposição para arcar com esses custos.
Uma competição de imperfeitos
Nesse cenário, a disputa pela primazia monetária é um jogo relativo. Os Estados Unidos acumulam dívidas, flertam com o protecionismo e exibem uma polarização política preocupante. Ainda assim, seus rivais estão em posição mais frágil. O euro, por exemplo, representa um bloco econômico de peso e oferece credibilidade institucional. Cerca de 20% das reservas globais já são alocadas na moeda europeia. O problema é estrutural: a zona do euro carece de um ativo de reserva unificado e profundo, um equivalente aos títulos do Tesouro americano (US Treasuries). A emissão de dívida conjunta durante a pandemia foi um passo tímido, mas uma união fiscal robusta parece um projeto para décadas, não para anos.
A China, por sua vez, se autoexclui da competição ao não abrir mão de seus controles de capital. Pequim enfrenta o clássico “trilema” da macroeconomia, no qual é impossível ter, simultaneamente, taxa de câmbio fixa, política monetária autônoma e livre fluxo de capitais. O governo chinês prioriza as duas primeiras para gerenciar seu modelo exportador e estimular a economia internamente. O fato de que uma parcela crescente do comércio chinês é liquidada em renminbi é menos relevante do que parece. O que importa é a moeda em que as transações são faturadas, e nesse quesito o dólar ainda domina com folga.
Mesmo que o reinado do dólar um dia chegue ao fim, o processo dificilmente será o evento cataclísmico que muitos imaginam. A transição da libra esterlina para o dólar no século XX foi um declínio lento, que durou décadas. A supremacia da moeda americana persiste não por ser uma solução perfeita, mas por ser a menos imperfeita em um mundo de alternativas com falhas ainda mais gritantes. Por enquanto, o dólar não vence por nocaute, mas por ausência de um desafiante à altura.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




