A decisão de prescrever ou não quimioterapia após uma cirurgia de câncer de mama, uma das mais angustiantes para médicos e pacientes, está ganhando um novo aliado: a análise genômica. Um teste específico, o Oncotype DX Breast Recurrence Score, tem se mostrado capaz de alterar drasticamente a conduta clínica, evitando tratamentos agressivos e desnecessários em uma parcela significativa de mulheres.

A tecnologia chega em um momento crítico. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o câncer de mama foi o mais comum entre mulheres em 164 países em 2024. A questão, portanto, não é apenas tratar, mas tratar com precisão. O que os dados mostram, segundo reportagem da MIT Technology Review Brasil, é uma mudança de paradigma: da medicina de protocolos para a medicina de precisão.

Do protocolo à precisão

Tradicionalmente, a indicação de quimioterapia se baseia em características clínico-patológicas, como tamanho do tumor e idade da paciente. Embora úteis, esses critérios são estatísticos e carregam o risco do excesso — submeter uma paciente a um tratamento debilitante sem benefício real — ou da omissão, deixando de tratar quem precisaria. A nova abordagem ataca essa incerteza na sua raiz biológica.

O teste genômico analisa um painel de genes do tumor para calcular um "escore de recorrência", que prediz o risco de o câncer voltar e o benefício da quimioterapia. Os resultados são diretos: na América Latina, o tratamento foi modificado em 37% dos casos, com uma redução de 39% nas indicações de quimio. No Brasil, o impacto observado em um hospital público foi ainda mais expressivo, com mudança de conduta em 65% das pacientes e uma queda de 66% nas prescrições do tratamento.

O movimento vai além de apenas poupar pacientes de um tratamento árduo. Ao refinar o diagnóstico, a tecnologia genômica permite uma alocação mais inteligente de recursos no sistema de saúde e, fundamentalmente, oferece uma jornada terapêutica mais individualizada. A mesma lógica que veta uma quimioterapia desnecessária é a que pode confirmar, com mais segurança, sua real necessidade para outra paciente, tornando a luta contra a doença menos sobre incertezas e mais sobre dados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil