O Banco Central Europeu (BCE) pode não ter encerrado seu ciclo de aperto monetário. A sinalização veio de uma das vozes mais influentes no conselho da instituição: Joachim Nagel, o presidente do Bundesbank, o banco central da Alemanha. Em entrevista à CNBC, Nagel afirmou não descartar novas altas de juros, mesmo que a medida empurre a política monetária para um "território ligeiramente restritivo".

A declaração ocorre logo após o BCE elevar sua taxa de depósito em 25 pontos-base, para 2,5%, um nível que, na visão de Nagel, está no "limite superior do território neutral". A leitura aqui é clara: para os chamados "falcões" monetários, como a liderança do Bundesbank, a missão de domar a inflação na zona do euro ainda não está cumprida, e o custo para a atividade econômica é um preço que parecem dispostos a pagar.

O dilema do 'juro neutro'

O debate interno no BCE parece girar em torno de um conceito teórico, mas de implicações práticas imensas: a taxa de juro "neutra". Este é o nível que, em tese, não estimula nem desestimula a economia. Ao sugerir que o BCE está no topo dessa faixa, Nagel indica que qualquer movimento adicional representaria um freio deliberado ao crescimento. A própria presidente do BCE, Christine Lagarde, tentou minimizar a importância do conceito, tratando-o como uma "estatística teórica" que não determina o rumo da política monetária.

A divergência, ainda que sutil, expõe a tensão fundamental que guia as decisões em Frankfurt. De um lado, a urgência em ancorar as expectativas de inflação, especialmente com a chegada do inverno europeu e a incerteza sobre os preços da energia. De outro, o risco de induzir uma recessão em uma economia que já mostra sinais de fragilidade. A posição de Nagel, ecoando a tradicional ortodoxia do Bundesbank, deixa claro que, na dúvida, a prioridade é e continuará sendo a estabilidade de preços.

Um inverno de incertezas

Embora o presidente do Bundesbank alerte para os riscos inflacionários, ele também pondera que o cenário energético da Europa é mais robusto hoje do que era em 2022, logo após o início da guerra na Ucrânia. A construção de novos terminais de gás natural liquefeito (GNL) deu ao continente uma margem de segurança. Isso sugere que a postura do BCE não é de pânico, mas de uma vigilância calculada.

A disposição para adentrar um território restritivo é um sinal para os mercados de que o crédito barato não voltará tão cedo. Para empresas e consumidores da zona do euro, a mensagem é de que o custo do capital permanecerá elevado, impactando decisões de investimento e o consumo. A política monetária opera com defasagens, e os efeitos completos dos juros a 2,5% — ou mais — ainda serão sentidos nos próximos meses.

O recado de Frankfurt, portanto, é de sobriedade. A batalha contra a inflação exige um remédio amargo, e o BCE, sob forte influência de seus membros mais conservadores, parece disposto a administrar a dose necessária, mesmo que os efeitos colaterais sobre o crescimento sejam inevitáveis. A questão que paira sobre a economia europeia não é apenas se haverá mais altas, mas qual será o custo final dessa estratégia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España