Para a família de Kripa Vaidyanathan, em Chennai, na Índia, a morte da sobrinha de 27 anos em um acidente de carro foi um golpe que abalou a fé. A busca por consolo junto a um proeminente guru humano resultou em uma resposta fria e protocolar sobre carma. Foi então que, em meio ao luto, eles se voltaram para o ChatGPT. “É muito mais fácil tentar obter respostas e paz de espírito porque o ChatGPT não está te julgando”, disse Vaidyanathan, uma instrutora de ioga, em uma fala que captura o espírito de um tempo.

O que a família indiana descobriu — um oráculo acessível, privado e desprovido de julgamento moral — espelha uma tendência crescente. A busca por orientação espiritual está migrando para a inteligência artificial. Segundo reportagem da Fast Company, o fenômeno já é tão relevante que gurus de renome global, como Sadhguru e Deepak Chopra, lançaram seus próprios chatbots, alimentados por décadas de seus ensinamentos. A promessa é a mesma: acesso irrestrito à sabedoria, sem as barreiras de tempo, custo e ego que podem acompanhar um guia de carne e osso.

O espelho digital da fé

A ascensão do guru-robô, no entanto, expõe uma tensão fundamental. De um lado, plataformas como o GitaGPT, que usa o texto sagrado hindu Bhagavad Gita para oferecer conselhos através de um avatar do deus Krishna, democratizam o acesso a ensinamentos antes restritos. Seu fundador, Vikas Sahu, argumenta que, em momentos de angústia, ter “alguém” para conversar pode ser um alento vital, especialmente quando a ferramenta se baseia na “palavra de Deus”.

Do outro lado, críticos e acadêmicos alertam para a superficialidade dessa conexão. Liz Bucar, professora de religião na Northeastern University, argumenta que um texto sagrado sem uma comunidade e um contexto para interpretá-lo são “apenas palavras em uma página”. Outros apontam que a IA tende a validar o usuário, agindo mais como um animador de torcida do que como um mestre que desafia e provoca o crescimento. A interação, afinal, carece do que muitas tradições consideram essencial: a presença física, o olhar que é a “janela da alma”.

O debate, portanto, vai além da eficácia da tecnologia. O fato de que tantos estão dispostos a buscar transcendência em um sistema algorítmico talvez diga menos sobre o futuro da IA e mais sobre a crise de confiança nas instituições humanas. A questão que permanece não é se um chatbot pode substituir um guru, mas o que nossa crescente disposição em confessar nossos medos a um algoritmo revela sobre a nossa própria e solitária busca por sentido.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company