Universos paralelos são um tropo comum na cultura pop, quase sempre associados ao terror ou ao caos, como o "Mundo Invertido" de Stranger Things ou os saltos dimensionais de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Um projeto artístico global, no entanto, subverte essa lógica, usando a ideia de uma realidade alternativa não para assustar, mas para adicionar uma camada de encantamento ao nosso próprio mundo.
Trata-se do Kcymaerxthaere, uma criação do artista e designer americano Eames Demetrios. Conforme documentado pela publicação Atlas Obscura, o projeto consiste em instalar placas de metal em locais específicos do globo, que narram histórias de um universo paralelo ficcional que interage com a nossa realidade. Um desses portais narrativos está fincado em Vilnius, capital da Lituânia, designada no mapa de Demetrios como a "Cidade da Justiça".
Ficção como camada urbana
Kcymaerxthaere é, em essência, um exercício de world-building que se recusa a viver apenas na ficção. Demetrios, que é herdeiro e guardião do legado de design de Charles e Ray Eames, utiliza seus recursos para dar materialidade a esse universo. Ele viaja o mundo em busca de locais que, por sua natureza, já parecem pertencer a outra realidade, e os consagra como palcos de eventos kcymaerxthaerianos.
A escolha do bairro de Užupis, em Vilnius, é emblemática. A área, uma "república" autodeclarada por artistas, com sua própria constituição e atmosfera lúdica, já opera em uma fronteira tênue com a ficção. A placa ali instalada conta a história de um menino do mar e da perseguida Eliala Mei-Ning, cujo canto criava uma cidade de justiça ao seu redor. A narrativa não substitui a história real do local; ela a complementa, convidando o passante a enxergar o espaço sob uma nova luz.
A arte de reencantar o mapa
Diferente de intervenções de arte de guerrilha, Kcymaerxthaere tem uma escala e uma permanência que o aproximam mais de um monumento. As placas, escritas no idioma local e em inglês, são feitas para durar, fixando a ficção na paisagem urbana de forma perene. O projeto transforma o turismo e a exploração urbana em uma espécie de caça ao tesouro interdimensional, onde cada placa é uma janela para outra camada de significado.
O que Demetrios propõe não é uma fuga da realidade, mas um enriquecimento dela. Ao sobrepor seu mapa ficcional ao mapa real, ele questiona a própria natureza da história e da identidade de um lugar. Um local deixa de ser apenas um ponto geográfico para se tornar um nexo de múltiplas narrativas, reais e imaginadas. O projeto sugere que qualquer lugar pode guardar uma história fantástica, bastando que alguém se proponha a contá-la.
No fim, Kcymaerxthaere opera como um convite. Ele nos lembra que o mundo é tão interessante quanto as histórias que contamos sobre ele. A intervenção de Demetrios não oferece respostas, mas deixa no ar uma pergunta produtiva: e se a ficção não for apenas uma forma de entretenimento, mas uma ferramenta para reencantar o mundo que já habitamos?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Atlas Obscura





