Em um recado direto ao mercado, o presidente da Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV) da Espanha, Carlos San Basilio, defendeu que o avanço da tecnologia nas finanças não pode prescindir da supervisão humana. "É fundamental que o controle humano seja, em última instância, o determinante para tomar as decisões", afirmou ele durante um evento do 'El Confidencial' em Madri.
A posição do principal regulador do mercado de capitais espanhol lança luz sobre uma tensão central na era da inteligência artificial e dos ativos digitais: como equilibrar a busca por eficiência e inovação com a necessidade de garantir a estabilidade e a responsabilidade no sistema financeiro. A mensagem é clara: a euforia tecnológica precisa de um lastro de bom senso e governança humana.
O paradoxo da inovação controlada
Longe de ser um discurso ludita, a fala de San Basilio reconhece os benefícios da digitalização para além do universo volátil das criptomoedas. Segundo reportagem da Forbes España, o regulador acredita que a IA pode baratear e agilizar processos de emissões de ativos, pagamentos transfronteiriços e contratações. O ponto nevrálgico não é a tecnologia em si, mas seu grau de autonomia.
Os números atuais, no entanto, mostram que a revolução ainda não começou de fato. O próprio San Basilio descreveu o uso de tecnologias como DLT (Distributed Ledger Technology) como "marginal". Em toda a União Europeia, apenas cinco empresas estão registradas sob o regime piloto de DLT. Na Espanha, a tokenização de ativos soma apenas 21 emissões, com um valor total de € 70 milhões — uma fração ínfima perto da capitalização de € 1,7 trilhão da bolsa espanhola. O motivo, segundo ele, é um arcabouço regulatório que, até agora, tem sido "bastante controlador".
O futuro regulatório em jogo
Esses ambientes regulados foram desenhados mais "para testes do que para crescimento", admitiu San Basilio. Um dos principais gargalos é o teto de € 6 bilhões para o valor de mercado de instrumentos tokenizados em uma única plataforma DLT. Para o regulador, esse limite desincentiva "investimentos ambiciosos" necessários para escalar a tecnologia.
A boa notícia para os inovadores é que Bruxelas já debate a possibilidade de elevar ou mesmo eliminar esse teto. O movimento sinaliza uma nova fase na regulação, saindo da experimentação em sandbox para a criação de um mercado real. A discussão na Europa ecoa desafios semelhantes enfrentados por reguladores no Brasil, onde o Banco Central e a CVM também calibram as regras para projetos como o Drex, buscando fomentar a inovação sem abrir mão da segurança sistêmica.
O posicionamento do chefe da CNMV, portanto, não é uma barreira à tecnologia, mas uma definição de seu lugar. A questão que se impõe para reguladores em todo o mundo não é se a IA e a tokenização vão transformar as finanças, mas quem terá a palavra final quando os algoritmos inevitavelmente falharem.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





