Rita Lee ouviu a guitarra antes de conhecer o homem. A música era Bandido Coração, gravada por Ney Matogrosso. O guitarrista era Roberto de Carvalho. O que se seguiu foi uma parceria de quase cinco décadas que não apenas moldou a vida de ambos, mas também redefiniu a sonoridade do pop brasileiro. Em uma conversa com o Brazil Journal, Carvalho revisitou as camadas dessa relação, onde o acaso e a necessidade forjaram uma das duplas mais potentes da nossa música.

Antes de se tornar o arquiteto sonoro por trás dos maiores sucessos de Rita, Roberto de Carvalho flertava com a diplomacia, inspirado pelo avô, um ex-ministro e embaixador. A música, no entanto, o puxou para outro destino. O encontro com Rita, após um show cancelado pela chuva, foi o catalisador. A intensidade dos primeiros meses — uma gravidez, a prisão de Rita pela ditadura, as dificuldades financeiras — testou a relação desde o início. Carvalho, no entanto, assumiu o posto: articulou advogados, negociou com a gravadora e, por fim, entrou para a banda Tutti Frutti, tornando-se o pilar que Rita precisava.

A parceria criativa floresceu a partir de uma dinâmica de opostos complementares. "Eu, naquela minha coisa de ficar tocando, de ficar improvisando. E a Rita, muito disciplinada, capricorniana, meio metódica," descreve ele. De seu improviso ao piano surgiam as melodias; da disciplina dela com um gravador de fita, nasciam as letras que se tornariam hinos, de Mania de Você a Lança Perfume. Era um processo íntimo, quase doméstico, que gerou uma obra de alcance massivo.

Mais de um ano após a partida de Rita, Carvalho a descreve como uma presença contínua. "Eu sinto a Rita viva em mim," afirma, emocionado. A fala não é apenas uma metáfora sobre memória, mas um testemunho da simbiose criativa e afetiva que construíram. A melodia dele e a palavra dela se fundiram de tal forma que, mesmo no silêncio, a música parece não ter acabado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech