No Cipriani, em Lower Manhattan, as luzes da New York Fashion Week se acendem para um nome que, até pouco tempo, era mais familiar aos frequentadores da Twitch do que aos da Avenue Montaigne. Kai Cenat, um dos maiores criadores de conteúdo do mundo, apresenta sua primeira coleção. O desfile da VIVET, sua marca, se desenrola em três atos, uma jornada que vai de moletons a ternos estruturados, simbolizando a própria trajetória de seu fundador: da internet para o epicentro da moda.

Este evento, ocorrido em 12 de setembro, não é um fato isolado. Ele representa um dos polos que hoje definem a indústria do luxo. No outro extremo, quase simultaneamente, uma notícia de natureza distinta ecoava de Milão. O Grupo Armani, um pilar da moda italiana, anunciava a contratação de Dario Vitale como novo diretor criativo para as linhas de acessórios da Emporio Armani e Giorgio Armani. Duas narrativas, uma sobre a criação de um novo poder, outra sobre a perpetuação de um legado, se desenrolam em paralelo, definindo os contornos do que é e do que será o luxo.

A sucessão e a continuidade

A nomeação de Dario Vitale é um movimento de peso e sobriedade. Segundo reportagem do Hypebeast, ele é o primeiro líder de design externo contratado para uma linha principal desde o falecimento do fundador, Giorgio Armani, em setembro de 2025. A escolha de um veterano com 14 anos de Miu Miu e uma passagem pela Versace não é acidental. É uma declaração de que, para a Armani, a transição geracional será guiada pela mão firme de um artesão do sistema, alguém que entende profundamente os códigos do luxo europeu.

O movimento sugere uma estratégia de continuidade e estabilidade, um caminho clássico para impérios familiares que enfrentam o desafio de suceder seu fundador visionário. Vitale assume a função imediatamente, com a missão de apresentar sua primeira coleção na temporada de outono/inverno de 2027. A leitura aqui é que o grupo optou por não arriscar com um nome disruptivo ou um fenômeno midiático, preferindo reforçar seu DNA com talento comprovado. É a antítese da lógica do hype, uma aposta na longevidade em detrimento do barulho imediato.

O palco da nova economia

De volta a Nova York, a lógica que impulsiona Kai Cenat é radicalmente diferente. Sua legitimidade não vem de anos em um ateliê em Paris ou Milão, mas de milhões de horas assistidas online. A marca VIVET nasce com uma audiência cativa e uma linha direta de comunicação com seu consumidor. A coleção, com foco em artigos de couro como as bolsas Cenova e Streamer, já nasce com demanda, impulsionada não por críticos de moda, mas pela comunidade do próprio criador.

Este modelo, onde a influência cultural precede o produto, está se tornando uma força dominante. Vê-se um padrão semelhante na expansão da joint venture NikeSKIMS para a China, alavancando o alcance monumental de Kim Kardashian, ou na forma como a Kith celebra seus 15 anos com um livro-arquivo da Assouline, tratando seu próprio histórico de colaborações como um artefato cultural digno de um publisher de luxo. Não se trata mais de uma marca buscando uma audiência, mas de uma audiência se tornando uma marca. A passarela, para essa nova geração, é apenas mais uma plataforma de conteúdo.

Enquanto Dario Vitale se prepara para herdar as chaves de um reino estabelecido, com a tarefa de zelar por um legado, Kai Cenat constrói seu próprio castelo em tempo real, transmitindo cada passo. A questão para a próxima década da moda não é qual dos dois modelos prevalecerá, mas como esses dois mundos, o da sucessão e o da criação instantânea, continuarão a colidir, se fundir e, inevitavelmente, se redefinir mutuamente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast