A cena é um clichê de verão em Bend, Oregon: o rio Deschutes apinhado de centenas, talvez milhares, de pessoas em boias coloridas, buscando alívio do calor. Para os turistas, é o auge de uma visita a uma das mais cobiçadas “cidades de montanha” dos Estados Unidos. Para os moradores, é um lembrete diário do paradoxo que define suas vidas: a beleza que atrai o mundo é a mesma que ameaça sufocar a cidade.

Este fenômeno, conhecido como “a armadilha das amenidades” (em tradução livre de “amenity trap”), descreve como os atributos que tornam um lugar desejável são erodidos pelo próprio sucesso. O trânsito piora, as trilhas se congestionam, o custo de vida dispara. Em Bend, a tensão chegou a um ponto de ebulição na pandemia, com adesivos de “Defund Visit Bend” (Desfinanciem a Visit Bend) se espalhando pelos carros da cidade. A resposta da cidade, no entanto, foi contraintuitiva: em vez de demonizar o turismo, Bend decidiu usá-lo para se reconstruir, conforme detalha uma reportagem da revista Outside Online. O modelo pode ser um manual para outros paraísos ameaçados pela própria popularidade.

O Custo do Paraíso

O padrão na indústria do turismo é claro: municípios cobram uma taxa sobre a hotelaria, e as organizações de marketing de destino (DMOs) usam essa verba para promover o local e atrair ainda mais visitantes. É um ciclo que se autoalimenta, focado no crescimento infinito. Bend, contudo, decidiu hackear esse sistema. Dos mais de US$ 14 milhões anuais arrecadados com a taxa de hospedagem, uma parcela significativa é direcionada ao Bend Sustainability Fund, um fundo criado para financiar projetos que aumentam a qualidade de vida de quem mora ali.

Nos últimos seis anos, o fundo investiu quase US$ 4 milhões em 42 projetos distintos. O dinheiro dos turistas, em vez de ir apenas para anúncios, foi usado para reabilitar vias de escalada no Smith Rock State Park, construir parques de mountain bike acessíveis a ciclistas adaptados, restaurar trilhas em cachoeiras icônicas e até financiar um projeto para que restaurantes abandonem plásticos de uso único. A lógica é simples: se o turismo gera impacto negativo, os recursos gerados por ele devem ser a principal fonte de mitigação desses danos, beneficiando diretamente a comunidade que suporta o fardo.

A Governança da Reconciliação

Os resultados começam a aparecer, não apenas na paisagem, mas na percepção dos moradores. Todd Montgomery, diretor do Laboratório de Turismo Sustentável da Oregon State University, mede o sentimento dos residentes em relação ao turismo. Seis anos atrás, a maioria sentia que os custos superavam os benefícios. Hoje, essa balança virou. Embora a margem seja apertada, com 51% dos residentes agora vendo mais benefícios do que custos, a tendência é de melhora contínua. “Quando você financia 10 ou 15 desses projetos por ano, começa a tocar diferentes grupos de pessoas. É aí que o cálculo muda”, afirma Montgomery na reportagem.

Isso não significa que os problemas desapareceram. O trânsito para acessar as estações de esqui continua sendo um gargalo, e os estacionamentos lotam. A questão mais espinhosa, porém, é a moradia. O preço médio de uma casa em Bend já ultrapassa os US$ 700 mil, um valor proibitivo para garçons, guias de rafting e outros profissionais que formam a espinha dorsal da indústria de serviços turísticos. O fundo de sustentabilidade não resolve diretamente essa crise, que é um subproduto da transformação de Bend em um destino para segunda residência de pessoas com alto poder aquisitivo.

O modelo de Bend é um passo fundamental, mas talvez incompleto. A experiência da cidade mostra que é possível usar a governança para mediar o conflito entre residentes e turistas, transformando o ressentimento em um senso de benefício compartilhado. Outras cidades, como Whitefish, em Montana, já começam a explorar o uso de taxas turísticas para investir em moradia para a força de trabalho local. A questão que paira sobre Bend e tantos outros lugares semelhantes não é apenas como gerenciar o fluxo de visitantes, mas como garantir que a alma da comunidade — seus próprios moradores — ainda tenha um lugar para viver nas próximas décadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Outside Online