Um dos nomes mais emblemáticos da gestão de recursos no Brasil, Arminio Fraga, anunciou a transferência da gestão de seus fundos para o Bradesco. A decisão de entregar a operação da Gávea Investimentos, fundada por ele há duas décadas, ao quarto maior banco do país, é o sinal mais forte de uma tendência que redefine o mercado financeiro local: o fim do ciclo de ouro das gestoras independentes.

Segundo reportagem da Bloomberg, o movimento não é um caso isolado, mas a crônica de um inverno anunciado para os fundos multimercado. Com a taxa Selic estacionada em dois dígitos, a competição com produtos de renda fixa com baixo risco e vantagens tributárias tornou-se insustentável. A tese é que a bonança que permitiu a dezenas de gestores deixar os grandes bancos para fundar suas próprias casas acabou, forçando um movimento de consolidação de volta às grandes estruturas bancárias.

A tempestade perfeita

A década passada foi marcada por um êxodo de talentos. Com a taxa de juros em sua mínima histórica de 2%, investidores foram obrigados a buscar alternativas de maior risco para obter retorno, alimentando o surgimento de inúmeras gestoras independentes. A promessa era de agilidade e retornos superiores em ações, juros futuros e mercados externos. O mantra era, como descreveu um executivo ao UBS, "três amigos e um terminal".

Essa era, no entanto, durou pouco. A escalada inflacionária pós-pandemia forçou o Banco Central a elevar os juros novamente, e o capital migrou de volta para a segurança da renda fixa. Os números da Anbima são contundentes: desde 2022, a indústria de multimercados registra uma saída líquida de R$ 672 bilhões, e o número de fundos macro encolheu cerca de 20% desde o pico em 2021. O patrimônio de sete das maiores gestoras independentes caiu quase pela metade no mesmo período.

O novo jogo de poder

Enquanto os independentes sofrem, as gestoras ligadas aos grandes bancos mostram-se mais resilientes, quase dobrando seu patrimônio em fundos macro desde 2019. Elas se beneficiam de uma base de clientes cativa e custos operacionais diluídos. Agora, avançam sobre os escombros. O Itaú, por exemplo, contratou executivos da Novus Capital e da SPX, além de incorporar a gestora Solana, montando uma estrutura de "pods" de investimento para atrair talentos.

Para Arminio Fraga, o problema transcende o ciclo de juros. Em sua análise, a taxa Selic persistentemente alta é um sintoma de um desequilíbrio fiscal profundo, com o governo absorvendo enormes volumes de capital para financiar seu déficit. "Os sinais que vêm dessa frente não são meramente cíclicos", afirmou à Bloomberg. A leitura é que, enquanto o quadro fiscal não for endereçado, o custo de capital no Brasil permanecerá elevado, criando um ambiente estruturalmente adverso para a gestão de risco.

O movimento da Gávea, portanto, é mais do que uma decisão de negócios. É um diagnóstico sobre os limites do modelo de gestora independente em um país cujo maior competidor pelo capital do investidor é o próprio governo. A questão que fica é se esta é uma consolidação passageira ou o fim de uma era para a Faria Lima.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney